Index   Back Top Print

[ IT  - PT ]

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA
(16-23 DE JUNHO DE 1983)

SOLENE CONCELEBRAÇÃO EM WROCLAW

HOMILIA DO SANTO PADRE

Terça-feira, 21 de Junho de 1983

 

1. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados" (Mt. 5, 6).

Com esta bem-aventurança do Sermão da Montanha a liturgia da solenidade de hoje venera Santa Hedviges da Silésia.

Saúdo com esta bem-aventurança a cidade de Breslávia na antiquíssima terra dos Piastas. Saúdo a Igreja Metropolitana presente em Breslávia e que agrupa as Igrejas sufragâneas de Gorzow e de Opole. Nestas Igrejas, saúdo todo o Povo de Deus da Baixa Silésia, da Terra de Lubusz e de Opole, que terei ainda hoje oportunidade de visitar, dirigindo-me ao Santuário no Monte de Santa Ana.

Saúdo o Metropolita de Breslávia, Arcebispo Henrique, como também os Bispos Auxiliares de Breslávia, o Bispo Vicente, o mais velho de idade, e os Bispos Tadeu e Adão. De Gorzow, saúdo o Bispo Guilherme, com o qual fui chamado para o episcopado no mesmo dia, e ainda o Bispo Auxiliar Paulo, ao qual me foi dado impôr as mãos, conferindo-lhe a Ordem Episcopal. Saúdo também o Bispo Afonso de Opole e os Bispos Auxiliares, que terei oportunidade de saudar depois na sua diocese.

Alegra-me a presença de muitos Bispos polacos, e também dos visitantes vindos do estrangeiro.

2. Vim muitas vezes a Breslávia no passado. Vinha de Cracóvia, especialmente no tempo em que o Arcebispo e depois Metropolita de Breslávia era o saudoso Cardeal Boleslau Kominek, um pastor de grande mérito para a Igreja e para a sociedade na Baixa Silésia; e vinha também depois já no tempo do seu actual sucessor. Conheço bem a Catedral gótica, que recorda os tempos do Bispo Nanker, na qual diversas vezes me foi dado celebrar a Eucaristia e proclamar a Palavra de Deus. Desejo saudar também o Cabido Metropolitano e todo o Clero, tanto de Breslávia como das outras dioceses, e igualmente as Famílias Religiosas masculinas e femininas. Frequentes contactos uniam-me ao Seminário eclesiástico de Breslávia e à Pontifícia Faculdade de Teologia. Desejo saudar hoje também estas Instituições, tão importantes para o futuro da Igreja e para o desenvolvimento da cultura católica na Baixa Silésia.

Quando estive na Polónia em 1979, Breslávia e a Baixa Silésia vieram a Jasna Góra, trazendo consigo as relíquias de Santa Hedviges. São relíquias muito preciosas e veneráveis, e recordam-me o dia 16 de Outubro de 1978, solenidade litúrgica de Santa Hedviges, quando, pelos imperscrutáveis desígnios da Divina Providência, fui chamado para a Sé de São Pedro em Roma. Hoje, no âmbito da segunda peregrinação à Pátria, por ocasião do jubileu de Jasna Góra, é-me possível vir a Breslávia. E aqui, juntamente convosco, caros Irmãos e Irmãs, posso repetir, junto das relíquias da vossa Santa Padroeira: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados".

Estas palavras dirigem o nosso coração também para o Jubileu extraordinário da Redenção, mediante o qual toda a Igreja deseja haurir mais abundantemente das fontes da Redenção.

3. Os Santos são as pessoas das oito bem-aventuranças. Tinha fome e sede de justiça Santa Hedviges da Silésia, aquela mulher perfeita (cf. Prov. 31, 10), como sobre ela se lê na primeira leitura da liturgia de hoje.

Ela era proveniente da Alemanha, da família dos Condes bavareses Diessen-Abdechs, e de lá foi para a terra dos Piastas, entrando na família dos Piastas como esposa de Henrique cognominado o Barbudo. Encontramo-nos na passagem do século XII para o século XIII. Tudo aquilo que o Livro dos Provérbios diz acerca da "mulher perfeita" se aplica à princesa Hedviges, como esposa e mãe. E aplica-se também a ela, no decurso da vida, como viúva (por isso a segunda leitura litúrgica fala hoje da viuvez).

Quando ficou viúva, ela descobriu que, mediante a chamada ao matrimónio e à maternidade, Cristo tinha-a preparado para uma outra vocação, graças à qual podia satisfazer completamente a vontade de Deus, tornando-se mediante uma doação exclusiva e completa ao Divino Esposo, assumindo um estilo de vida religiosa, "irmã e mãe" de Cristo, segundo as Suas palavras: "Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe" (Mc. 3, 35). Lemos estas palavras no Evangelho de hoje. Hedviges da Silésia cumpriu até ao fim a vontade de Deus, tornando-se no Espírito Santo "irmã e mãe" do próprio Cristo.

E esta sua maternidade espiritual devia realizar-se e confirmar-se de modo particular a respeito do seu próprio filho Henrique, chamado o Piedoso. Ele morreu — como todos sabemos — na dura batalha, na região de Legnica, contra os Tártaros, que então, na primeira metade do século XIII, tinham penetrado com os seus exércitos aguerridos em direcção ao Oeste, atravessando toda a terra polaca; Henrique o Piedoso morre no campo de batalha, em Legnica, mas os Tártaros não prosseguiram para o Ocidente, e retiraram-se para o Oriente, deixando assim livres do seu domínio as terras dos Piastas.

A mãe Hedviges soube viver com espírito de fé a morte do filho Henrique, e nisto mostrou-se semelhante à Mãe de Deus que, estando aos pés da cruz no Calvário, oferecia o sacrifício do seu divino Filho pela salvação do mundo. Deste modo, Santa Hedviges da Silésia entrou também na história da Polónia e da Europa.

4. Nesta história, ela é quase uma figura-limite, que une entre si duas nações: a nação alemã e a nação polaca. Une-as durante os muitos séculos de história difícil e dolorosa. No meio de todas as vicissitudes da história, Santa Hedviges permanece durante cerca de sete séculos como aquela que intercede pela recíproca compreensão e reconciliação, segundo as exigências do direito da nação, da justiça internacional e da paz. Pode-se dizer igualmente que, graças à sua intercessão, a Sé Apostólica pôde proceder à normalização eclesial nestes territórios, os quais, depois da segunda guerra mundial, após tantos séculos, se tornaram novamente parte do Estado polaco, como nos tempos dos Piastas. Recordamos, de facto, que Breslávia, como bispado já desde o ano mil, começou a fazer parte da metrópole de Gniezno, e tal situação durou até ao ano de 1821.

Desejaria dar aqui a palavra a um filho da terra da Silésia, e que é o primeiro metropolita de Breslávia depois da segunda guerra mundial. Eis as palavras que o Cardeal Boleslau Kominek pronunciou: "Junto da Ponte da Catedral em Wroclaw, que conduz à ilha dos Piastas, existe uma estátua de pedra de Hedviges. Está junto da ponte que une as margens oriental e ocidental do rio Odra. Chama a atenção de todos os que ali vão e leva-os a pensar que todos são irmãos, independentemente da margem em que vivem.

Unidos nesta fraternidade de Cristo, saudamo-nos reciprocamente. O mistério de Cristo sobre o altar, e a fraternidade dos homens, seja qual for a margem em que habitam, reuniram-nos no nome do Senhor.

Rezemos à nossa Padroeira da Silésia, para que nos obtenha junto da Santíssima Trindade a paz, a concórdia e a fraternidade na família humana das sociedades e das nações" (Trzebinca, 15.10.1967).

Esta ideia da compreensão recíproca e da reconciliação (Vershönung) teve, como se sabe, muitos representantes do Episcopado polaco e do alemão. Eu próprio participei numa visita destas, juntamente com o Cardeal Stefan Wyszynski, algumas semanas antes de ser eleito para a Sé de Pedro.

5. Olhamos, portanto, ao longo de mais de sete séculos, para Santa Hedviges, e vemos nela uma grande luz, que ilumina os problemas humanos da terra dos povos vizinhos e ao mesmo tempo os problemas da nossa terra natal. Na sua vida exprimiu-se quase toda a plenitude da vocação cristã. Santa Hedviges leu o Evangelho até ao fim e em toda a sua vivificante verdade. Não existia nela nenhuma divergência entre a vocação da viúva — fundadora do convento de Trzebnica —, e a vocação da esposa-mãe na casa dos Piastas, de Henrique. Uma coisa veio depois da outra e, ao mesmo tempo, uma estava profundamente radicada na outra. Hedviges vivia para Deus desde o princípio, vivia sobretudo do amor de Deus, exactamente como prescreve o primeiro mandamento do Evangelho. Vivia assim no matrimónio como esposa e mãe. E quando ficou viúva, viu imediatamente que este amor a Deus acima de tudo podia doravante tornar-se exclusivo em relação ao Esposo divino. E seguiu esta vocação.

No mandamento evangélico do amor encontra-se, de facto, a mais profunda fonte do desenvolvimento espiritual do homem. Por isso, também a todos vós, caros Irmãos e Irmãs, meus Compatriotas, que aqui em Breslávia e na Baixa Silésia recebestes esta particular herança de Santa Hedviges, desejo de todo o coração que a vossa vida pessoal, familiar e social, se baseie, segundo o modelo dela, no mandamento do amor. Este é de facto a fonte mais profunda de cultura moral dos homens e das nações. E é da cultura moral que depende o progresso essencial deles. O homem é um ser criado à imagem e semelhança de Deus; por isso, o seu desenvolvimento essencial e a verdadeira cultura resultam do conhecimento desta imagem e semelhança e da perseverante formação da própria humanidade nesta medida humana e ao mesmo tempo divina.

É necessário que vós, aqui presentes, que nascestes e crescestes na Baixa Silésia, seguindo as pegadas da vossa grande Padroeira, a Mãe dos Piastas, comeceis a ler, em certo sentido como se fosse sobre os seus joelhos, o Evangelho, como o liam os seus filhos, como o lia o príncipe Henrique o Piedoso, o herói de Legnica, e deste modo consolideis em vós próprios as bases mais profundas da moral humana e cristã, que é ao mesmo tempo fundamento da cultura da nação e condição do seu desenvolvimento.

6. "Nela confia o coração do marido" (Prov. 31,11): assim diz o Livro dos Provérbios acerca da "mulher perfeita". É necessário que ponhamos diante dos olhos da alma a imagem desta casa dos Piastas, daquela família na qual Hedviges foi esposa e mãe. A comunidade matrimonial e familiar edifica-se sobre a confiança recíproca. É este o bem fundamental das relações mútuas na família: a relação recíproca dos esposos e a relação entre pais e filhos. O fundamento mais profundo destas relações é, em última análise, a confiança que o próprio Deus nutre em relação aos esposos, criando-os e chamando-os à vida na comunidade conjugal e familiar.

Exactamente sobre esta confiança nos pais baseou Deus a relação entre os filhos e os pais. "Neles confia o coração de Deus". Deus baseou particularmente sobre a sua confiança na mãe, as relações filho-mãe. "Nela confia o coração de Deus"! Deus-Pai quis assim assegurar a vida da criança, o seu tesouro; quis que ela, já desde o momento da sua concepção fosse confiada à solicitude da pessoa que lhe está mais próxima: à sua própria mãe. "Nela confia o coração de Deus". Uma família é-o verdadeiramente se se constrói sobre tais relações, sobre a confiança recíproca, sobre a recíproca garantia. Apenas sobre um tal fundamento é possível instituir o processo de educação, que constitui a finalidade essencial da família e a sua função principal. Na realização de tal dever, os pais não podem ser substituídos por ninguém, e ninguém pode nem sequer privar os pais desta sua missão fundamental. Ao mesmo tempo, nunca é inútil recordar que o cumprimento deste dever apresenta aos pais importantes exigências. Os próprios pais devem ser educados para poderem educar, e devem também educar-se constantemente a si mesmos para poderem educar os outros. Somente nestas condições, com uma tal atitude interior, o processo de educação pode ser frutuoso. Se muito pode depender hoje — na Baixa Silésia e em toda a Polónia — de um frutuoso e eficaz processo de educação na família, é porque tudo isto tem uma importância fundamental para o futuro de toda a Nação, e — quase diria — para o bem do Estado polaco!

7. "Nela confia o coração do marido..." lemos na liturgia da festa de Santa Hedviges. Por que razão confia o coração do marido na mulher? Porque confia o coração da esposa no marido? Porque confiam os corações dos filhos nos pais? Tal confiança é certamente uma expressão do amor, sobre o qual se edifica toda a moral e a cultura a partir das relações fundamentais inter-humanas. Todavia, este amor depende também da verdade. Os esposos têm uma confiança recíproca porque crêem um no outro, porque se encontram na verdade. Os filhos confiam nos pais porque esperam deles a verdade, e confiam enquanto recebem deles a verdade. A verdade é pois o fundamento da confiança. E a verdade é também a força do amor. Reciprocamente, também o amor é a força da verdade. Na força do amor o homem dispõe-se a aceitar mesmo a verdade mais difícil, a mais exigente, Henrique dispôs-se a aceitar a verdade de que era necessário dar a vida e sua mãe. Santa Hedviges, soube aceitar a verdade da morte do filho.

8. Existe também uma relação indissolúvel entre verdade e amor e toda a moral e a cultura humana. Pode-se constatar com certeza que somente nesta relação recíproca o homem pode viver verdadeiramente como homem. Isto é importante em todas as dimensões. É importante na dimensão da família, que constitui a comunidade humana fundamental. Mas é importante também na dimensão de toda a grande sociedade, que é a nação. É importante na dimensão dos ambientes particulares, especialmente daqueles que por sua natureza tem uma função educativa, como a escola e a universidade. É importante para todos aqueles que procuram aumentar a cultura da nação: para os ambientes artísticos, para a literatura, a música, o teatro, as artes plásticas. É preciso criar na verdade e no amor. Pode dizer-se que quanto maior é o círculo, tanto menor é a focalização deste princípio. Não se deve porém subestimar nenhum círculo, isto é, nenhum ambiente, nenhuma instituição, nenhum meio ou instrumento de comunicação e de divulgação.

9. Toda a nação polaca deve viver em confiança recíproca! E esta confiança está baseada na verdade. Ela, aliás, deve readquirir esta confiança no círculo mais geral da sua existência social. Trata-se de um problema realmente fundamental. Não hesitarei em dizer que é precisamente disto — antes de tudo disto, da confiança construída sobre a verdade —, que depende o futuro da Pátria. É necessário edificar a confiança, aprofundá-la, dia a dia, centímetro por centímetro. Todas as dimensões do ser social, incluindo as dimensões politica e económica e, naturalmente, a dimensão cultural e qualquer outra, todas elas se baseiam em última análise nesta dimensão ética fundamental: verdade, confiança, comunidade. É assim na família. É assim também em qualquer escala, na nação e no estado. É assim igualmente em todas as famílias da humanidade.

"Sai do teu pais, da tua pátria e da casa do teu pai, e vai para um pais que eu te indicarei...; farei grande o teu nome" (Gén. 12,1-2). A liturgia de hoje aplica estas palavras a Santa Hedviges da Silésia. De uma terra estrangeira veio até nós e entrou na família dos Piastas e na nossa história, para testemunhar ainda hoje, depois de sete séculos, algumas verdades simples e alguns princípios fundamentais, sem os quais não existe uma vida verdadeiramente humana; sem os quais não podem viver nem desenvolver-se não apenas o homem e a família, mas também a nação.

10. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça! Há aqui em Breslávia e na Baixa Silésia, e em toda a Polónia, muitos homens, muitíssimos homens, que têm fome e sede de justiça.

Penso neste momento nos homens que trabalham cada dia duramente; penso nos campos polacos, nos homens que cultivam a terra, nos ambientes de formação, na Universidade de Wroclaw e nas Escolas Superiores e em todas as outras Escolas, nos homens da ciência e da cultura, nos artistas, nos mineiros, nos metalúrgicos, nos trabalhadores de "PaFaWag" (grande fábrica de carruagens), nos outros estabelecimentos, nos funcionários da administração, e em todos vós que cumpris o mandamento do Criador: "Dominai a terra". A todos trago a minha solidariedade e a da Igreja.

Esta fome e sede de justiça manifestaram-se de modo particular nos últimos anos.

Desejo vivamente, como pastor da Igreja e ao mesmo tempo como filho da minha Nação, confirmar esta fome e sede, que nascem dos sãos recursos do espírito polaco: do sentido da dignidade do trabalho humano, do amor à Pátria e da solidariedade, isto é, do sentido do bem comum.

Quereria ao mesmo tempo preservar esta justa fome e sede de justiça das grandes multidões dos meus compatriotas, de tudo aquilo que as deforma e enfraquece. Mas ao mesmo tempo, quereria também libertá-las e defendê-las de todas as objecções e acusações injustas, venham de onde vierem.

A tudo o que é a justa fome o sede de justiça na vida da nação, é preciso responder de modo tal, que toda a Nação readquira a confiança recíproca. Isto não se pode destruir nem suprimir. Não se pode descuidar, pois como diz o nosso poeta: "a Pátria é um grande dever recíproco", que obriga "a Pátria pelo homem" é "o homem pela Pátria" (C.K. Norwid, Memorial sobre a jovem Emigração).

A Nação polaca, e em particular Wroclaw e o povo da Baixa Silésia, com o olhar fixo na admirável figura de Santa Hedviges, mãe dos Piastas, recordam todos os que desta terra morreram durante a segunda guerra mundial, todos os que morreram durante estes quarenta anos, depois da conclusão da guerra, todos aqueles que perderam a vida nos acontecimentos dos últimos anos.

Wroclaw e o povo da Baixa Silésia, com o olhar fixo na admirável figura de Santa Hedviges, mãe dos Piastas, nesta terra, confessam com fé, esperança e caridade: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!".

 



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana