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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II A LOURDES
[14-15 DE AGOSTO DE 1983]

ENCONTRO COM OS SACERDOTES

PALAVRAS DO SANTO PADRE EM FORMA DE MEDITAÇÃO

Basílica do Rosário
Segunda-feira, 15 de Agosto de 1983

 

Caros Irmãos no sacerdócio

1. Juntos, na recordação pessoal e sempre viva do Bispo que nos conferiu o poder de perdoar os pecados, chegamos até ao próprio Senhor Jesus na tarde da Páscoa. Segundo a narração de S. João, os discípulos estavam ainda dentro do Cenáculo por medo dos judeus. E eis que o Mestre se lhes manifesta, lhes mostra as suas chagas de crucificado, lhes deseja a paz por duas vezes. Eles estão transtornados de emoção e de alegria. Jesus transmite-lhes então uma mensagem ao mesmo tempo simples e solene: "Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós". E, acrescentando um gesto simbólico que faz recordar o sopro criador do Génesis, infunde sobre eles o sopro regenerador e cuida de lhes dar o significado: "Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo. 20, 23).

2. Ó Cristo, reavivai em nós, reavivai em todos os sacerdotes, este dom verdadeiramente pascal! Este dom destinado a fazer passar a humanidade, inclinada sempre ao pecado, da morte à vida! Nesta tarde de Páscoa, vedes já, Senhor, o uso que faremos deste dom brotado do vosso coração, como os outros sacramentos. Conheceis as horas de fadiga e de alegria que haveremos de consagrar a este ministério tão sublime e tão humano. Actualmente há correntes de pensamento que relativizam a noção de pecado e por isto desvalorizam o poder, conferido pela ordenação, de o perdoar. Aqui, Maria fez que Bernadette transmitisse o convite a fazer penitência; e não cessou de continuar um maravilhoso movimento de conversão. Quantos homens e quantas mulheres, na capela das confissões, ou noutros lugares destes santuários, encontraram, graças ao nosso ministério, a paz de um coração purificado e a coragem da fidelidade ao Evangelho!

Ó Jesus, Vós o "Sumo Sacerdote que nós convinha: Santo, Inocente, Imaculado... elevado acima dos Céus" (Heb. 7, 26), tende piedade dos que se deixam levar por impensadas concessões, às ideias sedutoras, despojadas de realismo e perigosas que minimizam o pecado e o perdão! Viestes a este mundo para "curar e salvar todos os homens". Nós Vos rendemos graças por nos terdes escolhido e configurados conVosco, de modo sacramental, a fim de continuarmos a vossa missão de reconciliação dos homens com Deus e entre si.

3. Esta missão é absolutamente necessária, hoje como ontem! Ela deriva da missão primeira, referida em S. Mateus: "Ide, pois, ensinai todas as nações... (Mt. 28, 19). Ora, ser vosso discípulo, Senhor, significa "revestir-se de Vós": o vosso apóstolo Paulo muitas vezes recordou-o. Ao contrário, deixar-se ceder ao pecado, é despojar-se de Vós. Segundo o vosso ensinamento, e com toda a tradição da vossa Igreja, nós acreditamos que o pecado é pessoal, neste sentido que ele compromete o vosso crescimento em nós. De igual modo acreditamos que ele é social, neste sentido que, ao infiltrar-se nas diversas responsabilidades que confiastes ao vosso povo, o pecado impede a expansão da vossa vida entre os nossos irmãos humanos e fere o vosso Corpo místico, a Igreja.

4. Ó Jesus, cuja divindade foi confessada pelos primeiros apóstolos até ao derramamento do próprio sangue, nós queremos admirar a maneira como eles de modo perfeito cumpriram a vossa missão de Libertador do pecado que arruína o espírito e o coração dos homens, mesmo depois da graça do Baptismo. Nós queremos admirar a preocupação deles em exercer o ministério da penitência e da reconciliação, a eles por Vós conferida sem equívoco algum. Os testemunhos da Igreja primitiva são numerosos, ó Redentor de cada homem e de todos os homens, persuadi-nos de maneira profunda que nos chamastes e consagrastes para este ministério da reconciliação! Vós, que de maneira simples e divina explicastes que a penitência e a reconciliação são essencialmente uma conversão, um retorno ao Pai celeste, de Quem nos afastamos, e um retorno aos irmãos, dos quais nos separamos, renovai de modo especial na oração, as nossas disposições e o nosso zelo por este serviço eclesial, gerador de paz e de felicidade impossíveis de serem medidas.

Ao término desta meditação sob o vosso olhar, sentimos bem forte quando tendes necessidade da nossa voz, do nosso coração, do nosso gesto, enfim de todo o nosso ser sacerdotal, para acolhermos em nome da Igreja cada um dos nossos irmãos e das nossas irmãs desejosos e mesmo sedentos de reconciliação, e comunicar-lhes a resposta do vosso Amor misericordioso e regenerador; a cada um, a cada uma, com a sua história singular, os seus problemas particulares e também o seu lugar original na comunidade dos homens sempre a ser restabelecida, na unidade sempre a ser construída segundo o vosso plano de Salvação!

5. E se, — que pena! —, apesar dos nossos esforços em ser disponíveis e acolhedores, os fiéis são tão lentos em compreender quem os escuta, através dos gestos misericordiosos da Igreja, possamos compreender também o sentido desta provação. Sem dúvida ficamos perplexos diante do abandono do sacramento pela maioria dos fiéis, embora um pequeno número recorra a ele ou a ele volte de um modo frutuoso. Faremos tudo para instruir e persuadir os fiéis sobre a necessidade de receberem o perdão de maneira pessoal, fervorosa e frequente. E nos esforçaremos por exercer este ministério, como o pede a Igreja, para que ninguém se afaste dele, sob pretexto de considerar formal e superficial a celebração do sacramento. Mas, de facto, a negligência de pedir o perdão, e mesmo a recusa de se converter, é próprio do pecador, hoje como ontem. Não é a acção de Deus que reconcilia e o perdão que transforma o coração do pecador? O sacerdote, que ressente com tristeza o afastamento dos seus irmãos das fontes do perdão, participa na paixão de Cristo, no seu sofrimento diante do endurecimento dos corações, na sua angústia pela salvação do mundo. Ele próprio entra no combate espiritual e sabe que lhe será necessário, como o Cura D'Ars, preparar ou prolongar o seu ministério de perdão mediante o seu próprio sacrifício. Há demónios que são banidos só mediante a oração e o jejum (cf. Mc. 9, 29). Sabíamos disto no dia da nossa ordenação, quando o Bispo nos dizia: "Tomai consciência do que fazeis, vivei o que realizais, conformai-vos. ao mistério da Cruz do Senhor".

6. Ó Maria, Mãe do Redentor, de maneira silenciosa e activa neste santuário de Lourdes como em toda a Igreja, nós nos voltamos para Ti. Concede a todos os sacerdotes de Jesus Cristo a graça de darem uma importância maior, um tempo generoso, lima competência teológica e espiritual, e uma fidelidade quotidiana ao Espírito Santo para o sacramento da reconciliação de que os cristãos têm tanta necessidade; pois este é o sacramento em que os irmãos são reconciliados com Deus, o sacramento que prepara para se celebrar a Eucaristia, para viver de verdade a comunhão da Igreja Corpo de Cristo!

Caríssimos Irmãos no sacerdócio, abençoo no nome do Senhor o ministério que ides exercer aqui mesmo em Lourdes, e aquele que havereis de exercer até ao fim da vossa existência sacerdotal.

 



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