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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
A UM GRUPO DE PEREGRINOS DA DIOCESE DE ANGERS
VINDOS PARA A BEATIFICAÇÃO DE 99 MÁRTIRES

20 de fevereiro de 1984

 

Caros Irmãos e Irmãs da Diocese de Angers
e das Dioceses do Oeste

1. Depois da solene celebração de ontem, na qual foram proclamados beatos os vossos mártires, é com prazer que vos encontro aqui, neste ambiente mais familiar, e que vos saúdo a todos, bem como aos vossos bispos e às personalidades civis que vos acompanham. Muitos de entre vós têm entre os mártires alguns verdadeiros antepassados consanguíneos, ou pelo menos alguns familiares, e compreendo bem a sua emoção. Sois também muitos a partilhar felicidade e a honra de pertencer à paróquia de alguns dos beatos; viestes como uma delegação, e tencionais prolongar esta celebração no vosso país. Sei que a Revolução francesa — sobretudo no período do "Terror" — fez entre vós, na região ocidental, muitas outras vitimas, milhares de guilhotinados, fuzilados, afogados, mortos nas prisões de Angers. Sé Deus conhece os seus méritos, o seu sacrifício e a sua fé. A diocese e a Santa Sé não puderam examinar senão um número restrito de casos, nos quais o testemunho dos mártires era mais conhecido e mais claro no que se refere a motivação religiosa. O primeiro dos cem nomes considerados, Noel Pinot, já tinha sido beatificado em 1926, e ficou imortalizado na memória do povo sob a imagem do sacerdote subindo o cadafalso, vestido como para o sacrifício da missa. Mas seja qual for a relação pessoal que tenhais com este ou aquele de entre os que foram beatificados é — motivo que vos alegra e vos compromete igualmente —, é sobretudo de uma forma comunitária que vós os celebrais, especialmente no "Campo dos mártires" de Avrillé, e na catedral; todos vós sois seus irmãos e seus descendentes pela fé que eles vos deixaram.

Em relação ao que disse na homilia de ontem sobre o martírio como fruto do amor de Cristo, comentando os textos litúrgicos, desejo acrescentar hoje algumas reflexões para melhor situar o testemunho dos beatos no contexto da Revolução francesa e sobretudo na Igreja daquele tempo, de modo a aplicar a sua mensagem à nossa vida. Sei que as diversas etapas desta peregrinação tão bem preparada vos permitirão, juntamente com os vossos pastores, reconhecer todas as suas riquezas. Como sucessor de Pedro, evoco somente alguns aspectos que mais me impressionam.

2. A história destes noventa e nove mártires mostra-nos todo um povo cristão; as vocações são diversas, mas a fé é sólida e bem enraizada. Juntamente com os seus sacerdotes, os leigos ocupam um grande lugar, sobretudo as mulheres, originárias de todos os meios e profissões. Pessoas da aristocracia, da burguesia, do povo, comerciantes ou camponeses, aceitaram juntos o martírio. O quadro apresentado na beatificação mostrava este povo em marcha, às volta de um sacerdote, a caminho do céu. O que mais impressiona é a simplicidade do testemunho. Eles não procuravam passar por heróis, nem impressionar ou provocar; o martírio veio como um acréscimo, exigido pela fidelidade; por vezes, sobretudo no que se refere aos sacerdotes, eles tiveram que se esconder até ao momento em que foram denunciados. Mas, chegado o momento, eles respondem exactamente do modo necessário, simplesmente, sem fugir as questões comprometedoras, e sem prejudicar ninguém.

A sua prisão e a sua condenação situam-se naturalmente num contexto político de contestação de um regime que, naquela época, recusava muitos dos valores religiosos. Apesar deste movimento histórico ter sido inspirado por sentimentos generosos — liberdade, igualdade, fraternidade —  e por um desejo de reformas que eram necessárias, ele deixou-se enreder numa cadeia de represálias de violências e de ódio religioso. É um facto: Não nos compete julgar aqui esta revolução política. Deixamos aos historiadores a missão de qualificar os seus excessos. Consideramos no entanto o exemplo dos nossos mártires. Para eles, a aceitação da morte tinha um sentido de fidelidade religiosa. Eles tinham visto, com razão, no primeiro juramento exigido sobre a Constituição civil do clero um risco de cisma, deixando a Igreja à mercê do poder civil, e interpretavam o segundo juramento, em si demasiado vago, no contexto do primeiro.

O que eles desejavam era continuar fiéis à Igreja. Não concebiam que se pudesse separar a fé em Deus, em Cristo, da sua ligação à Igreja, aos seus legítimos pastores em comunhão com o Papa. E para eles a religião incluía a faculdade de beber livremente nas fontes das graças oferecidas por esta Igreja: a Eucaristia, as peregrinações, o culto do Sagrado Coração, da Virgem. Eles intuíram que, afastando-se de tudo isto, depressa se trairia o essencial, e, infelizmente, foi o que a experiência demonstrou. Qualquer que fosse o carácter da Constituição, republicana ou outra, o que os mártires desejavam acima de tudo era "que a religião fosse livre", como afirmou um deles. Queriam a paz para todos os seus compatriotas, sem provocação, sem ódio, no perdão e na oração.

3. Devemos ler agora este testemunho no contexto de hoje. A beatificação de tais mártires conduz-nos ao imenso numero dos que são perseguidos em todos os tempos, e sobretudo dos que sofrem hoje pela sua fé. Em Lourdes, quis falar em seu nome, quis abraçá-los a todos, com o coração da Igreja, com o coração da Mãe de Deus que a Igreja venera como sua Mãe e Rainha dos mártires. Não os esqueçamos! Quantas confidências impressionantes tenho recebido a seu respeito! Tende-os presentes na oração.

O seu caso é diferente do do tempo da Revolução francesa, mas o proso é semelhante. Começa-se sempre por acusá-los de um compromisso político, de uma falta de patriotismo. Pretende-se desligá-los da Igreja unida ao Papa, fazendo-lhes crer que poderão continuara praticar a sua fé com toda a independência. Procura-se chegar a uma Igreja separada da Sé Apostólica e do conjunto da comunhão católica. Pretende-se forçá-los a compromissos que os afastariam cada vez mais. E nos julgamentos não têm a possibilidade de se defender verdadeiramente. Só Deus conhece o seu nome e o seu sacrifício!

A falar verdade, se é certo que eles têm necessidade da nossa solidariedade e da nossa oração, nós temos para com eles uma grande divida de gratidão. De facto, eles realizam, em segredo, a oitava bem-aventurança.

Eles são o coração da Igreja. É deles, do Espírito Santo que está neles, que a Igreja recebe misteriosamente luz e vigor, na solidariedade que une os discípulos de Cristo, como tão bem mostrou Georges Bernanos no célebre "Diálogo das CarmeIitas". Realiza-se assim o que foi dito por São Paulo: "O que é fraco, segundo o mundo, é que Deus escolheu para confundir o que é forte.., o que é tido como fraqueza de Deus é mais forte que os homens" (1 Cor. 1, 27.25).

4. O testemunho dos beatos de Angers interpela-nos a nós próprios nestes países do ocidente nos quais não existe perseguição, mas onde a indiferença religiosa, o materialismo, a dúvida, o ateísmo e o clima de permissividade moral ameaçam os cristãos. Apesar da boa vontade e da generosidade que permanecem e que se exprimem por vezes com vigor e inteligência, este ambiente ameaça sufocar ou paralisar a fé de numerosos jovens e adultos. Os nossos mártires chamam-nos a dar um passo em frente. Eles mostram-nos como nos devemos comportar neste mundo.

Antes de mais, é evidente que devemos viver na caridade, na união fraterna, sem sectarismo, sem condenar ninguém, sem provocações inúteis, sem ódio, mas num diálogo que seja ao mesmo tempo benevolente, humilde, realista e claro. Sem fugir deste mundo, sem nos fecharmos em nós mesmos, sem pretendermos regressar ao passado. Trata-se de viver neste mundo, dando nele o nosso testemunho, não apenas oculto, escondido, mas que tenha o sabor do sal, que seja como a luz colocada sobre o candelabro.

Somos acima de tudo convidados à coragem da fé, de modo a afirmá-la, a exprimi-la nos sacramentos, e a dar testemunho dela na vida: na familia, comunicando-a aos mais novos; no mundo secular, de modo a lançar os fundamentos da comunidade cristã; no ambiente do trabalho, para comunicar à obra humana toda a sua dimensão. É necessário porém contar com determinadas indiferenças, incompreensões, zombarias. Somos sinais de contradição! Aprendamos a sofrer pela fé.

Lembremo-nos bem de que a infidelidade pode começar naqueles domínios que não chocam já um ambiente indiferente ou indefinido: um modo de considerar a Igreja como uma instituição vista de fora, criticando-a e esquecendo a solidariedade que se deve ter para com ela; uma opção subjectiva nas verdades da fé, o abandono da prática religiosa, o enfraquecimento de certas exigências morais. A fidelidade forma um todo. O afastamento da Igreja acaba por degenerar em ruptura com o próprio Cristo.

Mas, onde encontrar a força da fidelidade? Na certeza do amor de Deus, no mistério de Cristo. É este o núcleo da fé, da Boa Nova, de que falava ontem. Possamos nós dizer com os mártires de todos os tempos e especialmente com os de Angers; sei em quem creio! Jesus Cristo vive! Não se trata de uma ideia sobre a qual se possa discutir indefinidamente. Não se trata de um simples modo de falar. Não é apenas uma tradição, um hábito. É alguém, a quem eu amo e adoro, de um modo incondicional. Daria a minha vida por ele. Tenho sede da sua Eucaristia que a Igreja me oferece. Peço à Virgem Maria que me mantenha seu discípulo.

Participastes na Eucaristia. Sabeis bem o lugar importante que a participação na missa ocupava na vida dos vossos mártires — na missa celebrada por sacerdotes em comunhão com a Igreja — e isso com o risco da sua vida. Que cada um se interrogue sobre o valor que atribui à Eucaristia: ela é indispensável ao coração de toda a vida cristã. Do mesmo modo a oração familiar e quotidiana a Maria, tão necessária para nos aproximar de Cristo e da Igreja.

5. Esta exigência da coragem da fé dirige-se a cada um na diversidade das vocações e dos ministérios. A Igreja tem necessidade de personalidades impregnadas e animadas do Espírito Santo, capazes de responder a um apelo pessoal, sem esperar que o ambiente as leve a isso. Todavia, não será possível restaurar a presença cristã na sociedade senão agindo em conjunto no seio do povo de Deus. Não se trata de refazer a cristandade do passado tal e qual. Nem sequer de nos adaptarmos a este mundo. Trata-se de consolidar um povo cristão, solidário, unido à volta do seu bispo na afirmação da fé, que deve aceitar no seu seio sensibilidades diferentes, como eram as dos mártires de Angers, provenientes de ambientes diversos, e manifestar também a sua benevolência, sem condenar os seus irmãos. Mas ele deve também lutar pelo bem, procurar o melhor, apreciar a coragem dos que vão adiante, ouvir o apelo daqueles que vivem profundamente a sua vocação cristã desempenhando com alegria o seu ministério de sacerdotes, o seu carisma de religiosos, o seu papel de leigos cristãos, de esposos, de pais e mães de família, de celibatários, cumprindo os diversos serviços na comunidade cristã, a sua função de catequistas, o seu apostolado de testemunhas do Evangelho nos ambientes do trabalho, da promoção social, da acção pela paz, o seu compromisso de missionários sensíveis às necessidades da Igreja universal.

A palavra "mártir" tem o sentido fundamental de "testemunha". Jesus disse: com a força do Espírito Santo sereis minhas testemunhas... até às extremidades da terra (cf. Act. 1, 8).

É esta a Igreja que eu vos encorajo a formar, caros Irmãos e Irmãs das dioceses de Angers, de Luçon, de Nantes, de Poitiers, de Mans e de Laval. Sim, os vossos mártires — aqueles que foram ontem beatificados — e também o beato Noël Pinot, convidam-nos a um progresso na esperança. Que eles intercedam por vós! Por vós, testemunhos adultos que transmitis a fé; por vós, jovens gerações que preparais o futuro cristão da vossa região! Que a Virgem Maria, a quem rezam sem dúvida estes mártires, acompanhe o vosso caminho! E peço de todo o coração ao Senhor, Pai, Filho e Espírito Santo, que vos abençoe, a vós e a todos os que aqui representais.

 



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