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VIAGEM PASTORAL DO PAPA JOÃO PAULO II AO ALASCA, COREIA,
 PAPUA-NOVA GUINÉ, ILHAS SALOMÃO E TAILÂNDIA
(2-11 DE MAIO DE 1984)

DISCURSO DO SANTO PADRE
AO CORPO DIPLOMÁTICO ACREDITADO
JUNTO DO GOVERNO DA REPÚBLICA DA COREIA

Sexta-feira, 4 de maio de 1984

 

 

Excelências
Senhoras e Senhores

Um momento bem significativo nas muitas viagens que tenho feito às diferentes partes do mundo, em cumprimento da minha missão apostólica junto das comunidades católicas das diversas nações, tem sido o encontro com os Membros do Corpo Diplomático. Agora, aqui em Seul, é-me dado o grande prazer de me encontrar convosco, Membros do Corpo Diplomático acreditado junto do Governo da República da Coreia. Agradeço-vos terdes vindo aqui esta noite.

Conheceis muito bem as razões da minha visita. A Igreja Católica na Coreia está a comemorar o Bicentenário da sua existência nesta "Terra da Manhã Serena". É uma Igreja jovem já rica em experiência e cheia de promessas para o futuro. O próprio povo da Coreia dá a impressão de ser um povo jovem — apesar da sua longa historia — com uma vitalidade que encerra grandes promessas para o futuro: um povo cheio de esperanças e nobres aspirações, com um imenso anelo de paz e estabilidade, e de que sejam sanadas as graves feridas que continuam a causar profundo sofrimento. As aspirações à paz, segurança e unidade nacional, sentidas hoje cada vez mais em toda a parte, são de modo especial percebidas entre o povo coreano, e a minha visita é um meio para indicar que estes nobilíssimos desejos são compartilhados por mim e pela Igreja.

1. Como Membros do Corpo Diplomático, sois os representantes oficiais dos vossos respectivos países. O vosso serviço a eles traduz-se na promoção e proteção dos interesses dos vossos povos. Mas é característica do vosso serviço que deveis também ser atentos observadores e receptivos participantes na vida cultural, social e psicológica do país que vos recebe. Como Diplomatas, sois chamados a possuir uma crescente sensibilidade aos genuínos valores nacionais do País em que desempenhais a vossa missão. É absolutamente certo que quanto melhor conhecerdes e respeitardes o autêntico e original carácter do povo coreano, tanto melhor realizareis a importante tarefa de promover a mútua compreensão e a boa vontade. Também é absolutamente certo que a compreensão e a boa vontade, a colaboração e a co-responsabilidade são capazes de pôr em movimento, em escala mundial, uma busca mais generalizada da paz entre os povos.

2. Paz! Muito se tem dito sobre ela, porém a genuína paz é cada vez mais ilusória. Por una lado, os instrumentos de guerra — instrumentos de morte e de destruição — aumentam constantemente. Por outro, as disponíveis estruturas de diálogo, quer entre as grandes nações e alianças quer entre as partes para limitar e localizar conflitos, elas próprias se mostraram ser extremamente frágeis e vulneráveis. Deveremos deixar de falar sobre a paz? Ou não devemos antes encontrar palavras que provoquem uma resposta de séria reflexão da parte de todos aqueles que têm responsabilidade pelas decisões e políticas que afectam a paz? Não seria um crime permanecer em silêncio, quando aquilo que se torna necessário é um efectivo apelo a uma real "conversão do coração" por parte dos indivíduos, dos governos e das nações?

Conversão do coração foi o tema da minha Mensagem para o XVII Dia Mundial da Paz, celebrado a 1 de Janeiro deste ano: "De um coração novo nasce a paz". Como assinalei então, creio que uma reflexão séria sobre este tema "permite chegar ao fundo da questão e é de tal natureza que pode pôr em causa pressupostos que precisamente ameaçam a paz. A impotência em que se encontra e humanidade para acabar com as tensões, manifesta que os bloqueamentos ou, pelo contrário, as esperanças provêm de algo bem mais profundo do que os próprios sistemas" (n. l).

Esta mudança ou "conversão" do coração não é um ideal exclusivamente cristão ou mesmo religioso. É uma experiência humana fundamental e original, e afecta tanto as nações como os indivíduos. Repito o que afirmei na Mensagem para o Dia Mundial da Paz: "De maneira sumária, esta consiste em reencontrar a clarividência e a imparcialidade com a liberdade de espírito, o sentido justiça com o respeito pelos direitos do homem, o sentido da equidade com a solidariedade mundial entre ricos e pobres, a confiança mútua, e o amor fraterno" (n. 3).

3. A paz é ameaçada lá onde o espírito humano é oprimido pela pobreza ou cerceado por disposições sociopolíticas ou ideológicas. No nosso mundo, a paz é seriamente ameaçada pelas tensões que surgem de diferenças ideológicas entre o Este e o Oeste, e pelo crescente contraste entre os países desenvolvidos do Norte e os em vias de desenvolvimento do Sul.

A paz é ameaçada lá onde são ignorados ou menosprezados os direitos fundamentais do homem, especialmente o direito da liberdade religiosa. A paz é ameaçada onde não é reconhecido, promovido e salvaguardado o integral bem-estar da pessoa humana; onde os seres humanos não são respeitados na sua dignidade e valor inigualáveis; onde eles estão subordinados a interesses preconcebidos e à ambições de poder em qualquer das suas formas; onde os pobres são explorados pelos ricos, os fracos pelos fortes, as pessoas sem cultura pelos astutos e inescrupulosos. A paz é ameaçada onde a pessoa humana se torna vítima de processos científicos e tecnológicos, em vez de ser beneficiária das maravilhosas capacidades do genuíno progresso e desenvolvimento que o homem pode arrancar do universo. A paz é ameaçada por acontecimentos, mas estes mesmos acontecimentos reflectem causas mais profundas conectadas com a atitude do coração humano.

4. Há uma necessidade séria de repensar as políticas e prioridades básicas. Neste período da história há uma grande necessidade de sabedoria. Cada vez há menos espaço para pôr em jogo o bem-estar da família humana. A única opção é o sincero diálogo e a mútua colaboração para se construir uma ordem mais justa no mundo. Qual seja esta justa ordem, continua a ser, até certo ponto, o objecto de descoberta mediante um intercâmbio de ideias e de valores num clima sem preconceitos; um diálogo que tem como objectivo o bem comum de todos e os inalienáveis direitos de cada ser humano.

5. O meu apelo a vós, Senhoras e Senhores do Corpo Diplomático, é que utilizeis todos os meios à vossa disposição para promover este diálogo. Que um novo modo de pensar possa ser encontrado, juntamente com a coragem de estabelecer um novo começo! As fundamentais condições morais e psicológicas, que estão a salientar a presente situação do mundo, devem ser cuidadosa e imparcialmente reexaminadas.

Como acabo de sugerir, talvez a maior dificuldade para se conseguir um construtivo diálogo seja a falta de confiança mútua entre indivíduos, grupos, nações e alianças. Existe uma atmosfera de suspeita que faz que uma parte duvide da boa vontade da outra. Isto constitui sério e concreto obstáculo para a paz, sendo um deles o que resulta das reais circunstâncias que afectam a vida das nações. Deve-se reconhecer que é extremamente difícil dissipar esta atmosfera de medo, de suspeita, de desconfiança e de incerteza. A sensação de insegurança é real, e às vezes justificada, isto leva, por sua vez, a níveis cada vez mais altos de tensão agravados pela inevitável busca, por todos os meios e em toda a parte, de assegurar a supremacia militar —  mesmo para dominar mediante actos de aberto terrorismo, como em Rangoon — ou o predomínio através de controlo económicos e ideológico. As aspirações de centenas de milhões de seres humanos a uma vida melhor, as esperanças do jovem num mundo melhor, estarão inevitavelmente frustradas a não ser que haja uma mudança do coração e um novo começo!

6. Num reexame dos pressupostos morais e psicológicos que constituem uma ameaça para a paz, o desenvolvimento e a justiça, é requisito fundamental a obtenção de um novo clima de confiança. "A paz deve nascer antes da confiança mútua entre as nações, do que ser imposta pelo terror das armas" (Gaudium et Spes, 32). A mesma necessidade de um clima de confiança julga-se verdadeira também dentro das distintas nações ou povos. De um modo especial compete aos lideres das nações promover una clima de sincera boa vontade, tanto dentro como fora. E embora não possam ignorar a complexidade das relações internacionais, eles devem sentir-se obrigados a assumir a difícil tarefa de construir a paz. Servir a causa da paz: é uma obra de supremo amor à humanidade. "Isto hoje exige deles incontestavelmente que alarguem a sua inteligência e o seu espírito para além das fronteiras da própria nação, abandonem o egoísmo nacional e a ambição de dominar outras nações, nutram profundo respeito para com toda a humanidade" (ibid.).

Respeito para com a humanidade: eis aqui o núcleo de toda a questão. Se a pessoa humana é reverenciada, e respeitada na sua dignidade inviolável ou nos seus direitos inalienáveis, então a injustiça e a agressão serão consideradas como são: um acto de arrogância que encerra em si mesmo um certo desejo de morte porque prejudica o equilíbrio da ordem natural de equidade fundamental dos direitos e deveres, fazendo surgir uma situação de caos moral da qual, cedo ou tarde, todos se tornam vítimas. As palavras evangélicas, "tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles" (Mt. 7, 12), são a expressão de um requisito fundamental para a coexistência humana, válido também para as relações entre os indivíduos e para as relações entre as nações.

7. Hoje, aqui em Seul, aproveito esta oportunidade para vos pedir, vós Membros do Corpo Diplomático — e desejo tornar extensivo este apelo a todos os homens e mulheres que ocupam postos de responsabilidade —  que trabalheis pela paz esforçando-vos por uma mudança do coração, pelo empenho em ver a situação do mundo com uma nove visão e com o desejo de superar antigos preconceitos e pontos de vista unilaterais.

Como Diplomatas, tendes especiais oportunidades para manter e fortalecer a boa vontade entre povos e governos. Para o conseguirdes, deveis estar convictos de que a paz é possível; de que a paz é melhor do que a guerra; de que o ser humano merece ser preservado da actual lógica do medo e da falta de confiança. Nesta hora o mundo tem necessidade de vós como artífices da paz; o mundo precisa de homens e mulheres com um sentido do destino, dedicados à tarefa de salvar e nossa civilização das várias ameaças que põem em perigo a sua mesma existência.

8. No vosso serviço diplomático na Coreia podeis dar-vos conta de como as contrastantes ideologias e as paixões resultantes delas dão origem a intenso sofrimento. A angústia e o sofrimento de uma Coreia dividida são o símbolo de um mundo dividido que precisa de confiança e fracassa no intento de reconciliação no amor fraterno. São um símbolo de uma situação mundial que brada por uma resposta: uma nova atitude, um coração novo. A vossa missão aqui, por isso, assume particular significado e importância. Peço a Deus que vossa experiência vos convença de que uma só comprometida afirmação dos fundamentais direitos e valores humanos, juntamente com um efectivo respeito pela dignidade de cada pessoa humana, oferecerá una duradoura resposta às sinceras aspirações de todos os povos do mundo de viverem em paz e fraternidade.

Deus Todo-Poderoso vele sobre vós e vos conceda sabedoria e fortaleza para trabalhardes pela causa da justiça e da harmonia fraterna, entre todos os indivíduos e povos. Deus vos torne instrumentos da sua paz.

 



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