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VIAGEM PASTORAL DO PAPA JOÃO PAULO II AO ALASCA, COREIA,
 PAPUA-NOVA GUINÉ, ILHAS SALOMÃO E TAILÂNDIA
(2-11 DE MAIO DE 1984)

LITURGIA DA PALAVRA NO ENCONTRO COM OS JOVENS

HOMILIA DO SANTO PADRE

Seul, Palácio dos Desportos
Domingo, 6 de maio de 1984

 

Caros jovens de Seul
Caros jovens da Coreia

1. Sinto-me muito feliz por vos encontrar e poder abraçar no amor de Jesus Cristo nosso Senhor.

É com satisfação que vos encontro, precisamente porque sois jovens. De facto, ser jovem significa ser capaz de apreciar a sinceridade. Significa procurar o caminho para uma vida que valha a pena ser vivida. Ser jovem é ser atraído pela verdade, justiça, liberdade, paz, beleza e bem. Ser jovem significa ter vontade de viver, de viver com alegria e com ideal uma vida cheia de sentido.

Ser jovem é possuir ideais e esperanças. Significa também experimentar a solidão e o receio de que estas magníficas esperanças não sejam realizadas. E quanto mais amardes a vida, quanto maiores forem as vossas esperanças, maiores serão também muitas vezes os vossos receios. De facto, o que está em jogo é demasiado importante para ser perdido: esta vida única que Deus vos deu, e que mais ninguém pode viver em vosso lugar. Ser jovem Cristão é tudo isto e mais ainda: significa viver em Cristo!

2. Escolhestes como tema do vosso encontro: "Deus-eu-Povo". São palavras importantes. Para vós, porém, são mais do que palavras. Elas colocam-vos questões cheias de esperança e de angústia. Elas representam os grandes desafios e aspirações das quais depende o êxito da vossa vida. É por isso que desejais falar acerca destes temas, estudá-los, rezar sobre eles, e fazer alguma coisa sozinhos, com os outros, com Deus.

Como autênticos jovens, enfrentais algumas importantes questões acerca da vida: vida no lar, na escola, no contexto mais vasto da sociedade adulta. Existem por outro lado muitas coisas na vossa própria vida que vos perturbam: por que razão deve ser a escola um lugar de tão feroz competição? Porque existem tantas diferenças entre o que ouvis em casa e o que vos dizem na escola? Por que motivo os adultos parecem tão pouco predispostos para vos compreender e aceitar, bem como às vossas ideias e aspirações? Que deveis pensar de tanta falta de honestidade, de tantas contradições e injustiças que vedes à vossa volta, e que vos são apresentadas como inevitáveis no contexto social? Por que motivo deve ser a vida uma luta tão difícil contra obstáculos artificiosos, especialmente para aqueles de vós que se encontram já a trabalhar duramente? Que podereis fazer acerca da paz no vosso próprio país e no mundo de hoje, tão cheio de violência e de ódio?

Tendes igualmente algumas questões acerca da Igreja. Estará ela suficientemente próxima de vós? Poderá ela inspirar-vos realmente a viver de acordo com o Evangelho, a cuidar mais dos fracos e dos pobres, a superar todas as formas de egoísmo, e a tratar todo o ser humano como um irmão ou irmã?

Colocais-vos estas questões porque estais realmente preocupados. E acreditais que aquilo que esperais pode ser realizado. É por isso que sois a esperança do futuro para todos nós, e que vos amo tanto.

Por vezes sois incompreendidos. Por vezes encontrais-vos perante um muro de incompreensão. Apesar de tudo, não percais a coragem. Há um caminho a seguir. Coragem! O Senhor acompanha-vos na vossa estrada.

3. E é porque desejais estar com o Senhor que aderistes com todas as vossas alegrias e ansiedades, os vossos receios e esperanças, a Jesus Cristo. São Pedro perguntou: "Senhor, a quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo. 6, 68). Sim, Jesus Cristo tem palavras de vida eterna para vós, para todos os jovens da Coreia, para os jovens de todo o mundo.

Esta tarde Jesus fala-vos nas palavras de São Paulo ao seu jovem discípulo Timóteo: "Combate o bom combate da fé e conquista a vida eterna para a qual foste chamado" (1 Tim. 6, 12). Muitos de vós já aceitaram de facto Jesus no Baptismo, e foram fortalecidos para o "bom combate da fé" no Sacramento da Confirmação. Mas o que é esta fé"?

É uma fé em "Cristo Jesus, que deu um tão belo testemunho diante de Pôncio Pilatos" (1 Tim. 6, 13). Lembrais-vos certamente da cena do Evangelho de São João. Pilatos quer compreender as acusações contra Jesus. Ele quer saber quem é Jesus. E Jesus confessa claramente quem é: "Para isto nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz" (Jo. 18, 37).

Mas o que é a verdade da qual ele deu testemunho? É que Deus vos ama, que é Ele próprio Amor; que quem vê Jesus vê o Pai (cf. Jo. 14, 9). A verdade é que Deus, Pai de Jesus, é também nosso Pai: "O bem-aventurado e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores, aquele que é o único que possui a imortalidade e que habita na luz inacessível, a quem nenhum homem viu nem pode ver" (1 Tim. 6, 15-16). Este Deus, que a humanidade e cada um de nós tem procurado no seu próprio caminho, fez-se conhecer a nós e ao mundo em Jesus. Jesus confirmou o testemunho da sua verdade dando a sua vida por nós sobre a Cruz e ressuscitando dos mortos.

4. Aceitando esta verdade, e aceitando a vossa própria participação no Sacrifício pascal de Cristo, vós realizais aquilo que São Paulo encorajou Timóteo a fazer: "conquista a vida eterna para a qual foste chamado..." (1 Tim. 6, 12). Não se trata de uma coisa fácil. Antes de mais, tendes de lutar contra a descrença: por vezes contra a vossa própria descrença; e também contra a descrença de todos aqueles que, como Pilatos, não estão interessados, ou desistiram de encontrar alguma vez o verdadeiro sentido da sua vida. Como Pilatos, também eles perguntam sem esperança: "Que é a verdade?", e prosseguem sem resposta.

Deveis, além disso, lutar contra a tentação de mitigar as exigências do Evangelho, de falsificar a mensagem de Jesus, de diminuir as exigências morais pessoais e colectivas que ele faz a todos aqueles que o seguem. Combater contra esta tentação é "combater o bom combate da fé".

5. Depende agora de vós perguntar a vós mesmos como podereis, na prática, "dar um tão belo testemunho", aqui e agora, "diante de Deus, que vivifica todas as coisas, e de Jesus Cristo" (1 Tim. 6, 13), e também diante dos nossos contemporâneos. Por outras palavras, para onde vão "Deus, eu e o Povo"? Que estrada vou eu seguir?

Na leitura que ouvimos da Primeira Epístola a Timóteo, encontramos descritos dois programas de vida duas atitudes possíveis na vida. Uma destas é errada e deve por isso ser rejeitada; a outra é a única que é o verdadeiro caminho para "a verdadeira vida" (v. 19).

Há em primeiro lugar a atitude dos "ricos neste mundo", que são orgulhosos e colocam a sua confiança na riqueza e em tudo o que a acompanha: privilégios, poder, influência. Há depois a atitude daqueles que colocam a sua confiança em Deus, os que fazem o bem, que são "ricos em boas obras". Não se trata tanto de ter ou não ter riqueza: o que conta é a atitude do coração e as boas obras que dele derivam. Mesmo os jovens e os pobres em bens materiais podem ser "ricos" no coração" e "orgulhosos" em espírito se limitam o horizonte das suas esperanças e sonhos à egoística aspiração ao poder e ao bem-estar material.

A tentação de seguir este caminho é, como sabeis, realmente grande. Vós próprios a experimentais de modo especial quando sentis "realisticamente", como dizeis, que no fim de contas não vale a pena lutar por ser bom e altruísta num mundo tão cheio de injustiça, tão frio e insensível, no qual parece não haver espaço para os "mansos" e os "pobres em espírito" aos quais Jesus se referiu nas Bem-aventuranças. Mas lutar contra este cepticismo é "combater o bom combate da fé".

Ao ver aqui esta tarde as vossas faces jovens, sei que desejais viver de forma justa. Estou certo de que escolhereis o caminho ensinado por Cristo, e que não desistireis. E ao lutardes por criar um mundo melhor, defender-vos-eis da tentação de incoerência na vossa própria vida, — a tentação de combater a injustiça com injustiça, a violência com a violência ou qualquer outra forma de mal com o mal. As vossas armas são de outro género. São a verdade, a justiça, a paz e a fé, e são invencíveis. O poder de que dispondes no "bom combate da fe"" é "a espada do Espírito que é a palavra de Deus" (cf. Ef. 6, 10-17). Semente a palavra de Deus aponta o caminho da vitória, o qual passa através da reconciliação e do amor.

6. É importante para vós saber que não estais sós. A Igreja inteira está convosco na opção por este caminho que que é o de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Vós sois a geração mais nova da Igreja na Coreia, a qual está agora dando graças à Santíssima Trindade pelos duzentos anos de missão no vosso país. É agora a vossa vez de abraçar esta herança na sua totalidade e de transmitir aos que vierem depois de vós. Por isso, é importante que vos sintais na Igreja como em vossa casa, que tomeis o vosso lugar na Igreja, especialmente através de um compromisso cada vez maior na vida das vossas comunidades paroquiais, e nas obras de apostolado: "Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos céus" (Mt. 5, 16).

Mostrai ao mundo que escolhestes o caminho da verdade, do bem, da solidariedade, da honestidade e do amor do perdão e da reconciliação quando necessário, e da abertura todos. Sim, o caminho da generosidade, da disciplina pessoal e da oração. E quando alguém vos perguntar por que viveis deste modo, respondereis: "por causa da minha fé em Jesus Cristo".

7. Precisareis de ser fortes, mas Deus dar-vos-á a sua graça. A graça é de facto o poder de Deus que ilumina o caminho da vossa vida em direcção "à verdadeira vida" (v. 19). Caros jovens: é em união com Cristo através da oração — com Cristo vosso irmão e vosso Salvador, Cristo o Filho do eterno Pai que compreendereis o pleno significado da vida e recebereis a graça de a viver plenamente, de viver em Cristo! "A graça esteja convosco!" (v. 21).

E neste lindo mês de Maio, o Mês da juventude e o Mês da Bem-aventurada Mãe Maria, que ela, "cheia de graça" vos ame e vos conserve para sempre em seu Filho Nosso Senhor Jesus Cristo!

 



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