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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

 

 Como se derrota a estratégia do diabo

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 41 de 13 de Outubro de 2013

«Por favor, não façamos negócios com o diabo» e levemos a sério os perigos que derivam da sua presença no mundo», recomendou o Papa na manhã de 11 de Outubro, na homilia da missa em Santa Marta. «A presença do diabo está na primeira página da Bíblia, que termina com a vitória de Deus sobre o demónio», que volta sempre com as tentações. Não podemos «ser ingénuos».

O Pontífice comentou o episódio em que Lucas (11,15-26) fala de Jesus que expulsa os demónios. O evangelista menciona também os comentários de quantos assistem perplexos e acusam Jesus de magia ou, no máximo, reconhecem que Ele é só um curandeiro de pessoas que sofrem de epilepsia. Também hoje, observou o Papa, «existem sacerdotes que quando lêem este e outros trechos do Evangelho, dizem: Jesus curou uma pessoa de uma doença psíquica». Sem dúvida, «é verdade que naquela época era possível confundir a epilepsia com a possessão do demónio, mas também a presença do demónio era verdadeira. E nós não temos o direito de simplificar a questão», como se se tratasse de doentes psíquicos, e não de endemoninhados.

Voltando ao Evangelho, o Papa disse que Jesus nos oferece critérios para compreender esta presença e reagir: «Como ir pelo nosso caminho cristão, quando há tentações? Quando nos perturba o diabo?». O primeiro critério sugerido pelo trecho evangélico «é que se pode obter a vitória de Jesus sobre o mal, sobre o diabo, parcialmente».

Não se pode continuar a crer que é um exagero: «Ou estás com Jesus, ou contra Ele. E neste ponto não há alternativas. Existe uma luta na qual está em jogo a nossa salvação eterna». E não há alternativas, embora às vezes ouçamos «propostas pastorais» que parecem mais tolerantes.

Eis os critérios para enfrentar os desafios da presença do diabo no mundo: a certeza de que «Jesus luta contra o diabo», «quem não está com Jesus está contra Ele» e «a vigilância». É preciso ter presente que «o demónio é astuto: nunca é expulso para sempre, e só o será no último dia», pois quando «o espírito impuro — recordou — sai do homem, vagueia por lugares desertos à procura de alívio e, dado que não o encontra, diz: voltarei à minha casa, de onde saí. Quando volta, encontra-a limpa e adornada; vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e estabelecem-se ali. E a última condição desse homem vem a ser pior do que a primeira».

Eis por que motivo é preciso vigiar. «A sua estratégia avisou o Papa — é esta: tornaste-te cristão, vai em frente na tua fé e eu deixo-te tranquilo. Mas depois, quando te habituas e já não vigias, sentindo-te seguro, eu volto. O Evangelho de hoje começa com o demónio expulso e termina com o diabo que volta. São Pedro dizia: é como um leão feroz que dá voltas ao nosso redor». E isto não é mentira, «é a Palavra do Senhor».

E na missa de 10 de Outubro o Papa voltou a falar sobre a força e a coragem da oração. A nossa oração deve ser corajosa e não tíbia, se não quisermos obter só as graças necessárias mas sobretudo através dela, conhecer o Senhor. Se pedirmos, Ele mesmo nos trará a graça.

À necessidade de rezar com insistência se for necessário, mas deixando-se sempre envolver por ela, refere-se o trecho litúrgico do Evangelho de Lucas (11, 5-13) «com esta parábola — explicou o Pontífice — do amigo atrevido, o amigo inoportuno», que na noite funda vai pedir pão a outro amigo para saciar um conhecido que acabou de chegar à sua casa e ao qual nada tinha a oferecer. «Com esta solicitação — frisou — o amigo teve que se levantar da cama e dar-lhe o pão. Isto faz-nos pensar na nossa oração. Como rezamos? Rezamos por costume, piedosamente, mas tranquilos, ou pomo-nos com coragem diante do Senhor para pedir a graça, para pedir por que rezamos?».

A atitude é importante porque «uma oração que não for corajosa — afirmou o Pontífice — não é uma oração verdadeira». Quando rezamos é necessária «a coragem de acreditar que o Senhor nos ouve, a coragem de bater à porta».

Mas, perguntou-se o Santo Padre, a nossa oração é assim? Ou limitamo-nos a dizer: «Senhor tenho necessidade, fazei-me esta graça»? Numa palavra, «deixamo-nos envolver na oração? Sabemos bater à porta do coração de Deus?».

Portanto «quando rezamos corajosamente, o Senhor não só nos dá a graça, mas doa-se também a si mesmo na graça». «Porque o Senhor — explicou o Papa com uma expressão incisiva — nunca dá ou envia uma graça pelo correio: é ele quem a leva, é Ele a graça!».

«Hoje — disse na conclusão — na oração, na colecta, dissemos ao Senhor que nos dê aquilo que nem a oração ousa pedir. E o que é que nós não ousamos pedir? Ele mesmo! Nós pedimos uma graça, mas não ousamos dizer: vem tu trazê-la a mim. Sabemos que uma graça é sempre trazida por ele: é ele que vem e no-la dá. Não façamos má figura aceitando a graça sem reconhecer que quem a traz, quem no-la dá, é o Senhor».

Na missa celebrada na manhã de terça-feira, 8 de Outubro, o Papa reflectiu sobre o valor da oração: não de «papagaio» mas «feita com o coração» que nos faz «olhar para o Senhor, escutar o Senhor, pedir ao Senhor». Rezar significa abrir a porta ao Senhor a fim de que possa fazer algo para reorganizar as nossas situações. O sacerdote que cumpre o seu dever, mas não abre a porta ao Senhor, corre o risco de se tornar só um «profissional».

A reflexão desenvolveu-se a partir das leituras da liturgia, tiradas do livro de Jonas (3, 1-10) e do Evangelho de Lucas (10, 38-42). Em particular, referindo-se ao trecho evangélico o Pontífice propôs como modelo a seguir a atitude de Maria, uma das duas mulheres que hospedaram Jesus na sua casa. De facto, Maria parou para escutar e olhar para o Senhor, enquanto Marta, a irmã, continuou a ocupar-se dos afazeres de casa.

«A palavra do Senhor — explicou o Papa — é clara: Maria escolheu a melhor parte, a da oração, da contemplação de Jesus. Na opinião da outra irmã era perda de tempo». Maria parou para contemplar o Senhor como uma menina admirada, «em vez de trabalhar como fazia a outra».

A atitude de Maria é justa porque, frisou o Pontífice, ela «escutava o Senhor e orava com o seu coração». Eis o que «nos quer dizer o Senhor. A primeira tarefa na vida é a oração. Não a oração das palavras como papagaios, mas a oração do coração», através da qual é possível «contemplar o Senhor, escutar o Senhor, pedir ao Senhor. E nós sabemos que a oração faz milagres».

E na celebração da missa na manhã de segunda-feira, 7 de Outubro, o Papa Francisco sugeriu que deixemos que Deus escreva a nossa história. Para ouvir a voz de Deus na própria vida é preciso ter um coração aberto às surpresas. Caso contrário o risco é de «fugir de Deus», encontrando às vezes até uma boa desculpa. E pode acontecer que exactamente os cristãos sintam a tentação de fugir de Deus e as pessoas «distantes», ao contrário, consigam ouvi-lo.

 

 



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