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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

No caminho da pobreza

  Quinta-feira, 18 de outubro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 44 de 30 de outubro de 2018

Foi com uma oração pelo cardeal Ernest Simoni, no dia do seu 90º aniversário, que o Papa começou a celebração da missa. O purpurado albanês — preso na noite de Natal de 1963 e libertado só em 1990, após uma vida de trabalhos forçados — estava acompanhado pelo cardeal arcebispo de Florença, Giuseppe Betori. E durante a homilia o Pontífice dirigiu-se ao cardeal Simoni, recordando a perseguição da qual foi vítima precisamente por ser cristão. Mas as perseguições, afirmou com força o Papa, ocorrem ainda hoje e também no sínodo dos bispos foram apresentados testemunhos heroicos de jovens fiéis ao Evangelho até ao martírio.

No início da homilia, Francisco observou que «na oração da coleta vimos que o Senhor, por meio de São Lucas», cuja festa se celebra hoje, «quis revelar a sua predileção pelos pobres». E «sabemos isto graças aos escritos de São Lucas: o seu Evangelho e os Atos dos Apóstolos».

Exatamente o trecho do Evangelho de Lucas (10, 1-9), proposto pela liturgia de hoje, realça que «quando o Senhor envia os seus 72 discípulos, envia-os “em pobreza”, dando-lhes conselhos de pobreza». É «a pobreza do discípulo: o Senhor quer que o caminho do discípulo seja pobre».

Se o discípulo estiver apegado ao dinheiro, às riquezas, «não será verdadeiro discípulo», insistiu o Pontífice, sugerindo que «existem três maneiras de viver a pobreza na vida dos discípulos, várias pobrezas, três etapas — podemos dizer — de diversas pobrezas».

«A primeira é: desapegado do dinheiro, das riquezas». Enviando os discípulos, Jesus recomenda-lhes que não levem «bolsa, nem mochila, nem sandálias» e diz: «Ide pregar com o mínimo». E, «se na labuta apostólica forem necessárias estruturas ou organizações que parecem ser um sinal de riqueza, usai-as bem». Mas sempre «desapegados». Em síntese, é preciso um «coração pobre». Com efeito, «a condição para começar o caminho do discipulado é a pobreza».

A este propósito, Francisco convidou a pensar «naquele jovem, tão bom a ponto de comover o Coração de Jesus». Aquele jovem «não foi capaz de o seguir porque possuía muitos bens e o seu coração estava apegado às riquezas». Ao contrário, afirmou o Pontífice, «se quiseres seguir o Senhor, escolhe o caminho da pobreza» e se tiveres riquezas, é porque «o Senhor as deu a ti para servir o próximo». Mas «o teu coração» deve ser «desapegado» delas. Além disso, insistiu o Papa, «o discípulo não deve ter medo da pobreza, aliás, deve ser pobre: esta é uma das várias formas de pobreza que o Senhor pede aos seus discípulos».

Depois, disse Francisco prosseguindo a sua meditação, «há outra forma de pobreza» que podemos reconhecer nas palavras de Jesus: «Ide, eis que vos envio como cordeiros entre os lobos». É «a pobreza das perseguições, os discípulos do Senhor, perseguidos por causa do Evangelho: também hoje há muitos, caluniados».

A este propósito, revelou o Papa, «ontem, na sala do Sínodo, um bispo de um país onde existe a perseguição, falou de um rapaz católico, vítima de um grupo de jovens fundamentalistas que odiavam a Igreja; foi espancado e depois atirado para uma cisterna, onde lançavam lama e quando esta chegou ao pescoço», intimaram-no: «pela última vez, renuncias a Jesus Cristo?». E ele: «Não!». Assim, «atiraram uma pedra e mataram-no». E «como todos ouvimos, isto não aconteceu nos primeiros séculos, mas há dois meses!». E «é um exemplo», afirmou Francisco: «Mas quantos cristãos sofrem hoje perseguições físicas: “Este blasfemou! À forca!”. É assim. Perseguições que persistem há tanto tempo, e o nosso irmão nonagenário poderá dizer-nos muitas coisas», acrescentou o Papa, referindo-se precisamente ao cardeal Simoni.

«Mas há outras perseguições», prosseguiu o Pontífice. A começar pela «perseguição da calúnia, das maledicências, e o cristão fica em silêncio, tolera esta “pobreza”». Sim, acrescentou, «às vezes é preciso defender-se para não dar escândalo». Há «pequenas perseguições no bairro, na paróquia: pequenas, mas são a prova de uma pobreza». E «é a segunda forma de pobreza que o Senhor nos pede: a primeira é deixar as riquezas, não viver com o coração apegado aos bens; a segunda, aceitar humildemente as perseguições, tolerá-las. Esta é uma pobreza».

Depois, Francisco explicou que há também «uma terceira forma», sugerida pela primeira leitura da liturgia de hoje, tirada da segunda carta do Apóstolo São Paulo a Timóteo (4, 10-17). Trata-se da «pobreza da solidão, do abandono: quando o discípulo, que saiu com muita vitalidade para anunciar o Senhor, também tolerou as perseguições, no fim da vida sente-se abandonado por todos». E «este trecho de Paulo, do grande Paulo que nada temia, é um exemplo desta pobreza».

A tal ponto que Paulo «escreve ao seu filho — filho espiritual — Timóteo, bispo: “Meu filho, Demas abandonou-me, Crescente partiu para a Galácia; Tito, para a Dalmácia. Só Lucas permaneceu comigo. Alexandre, o ferreiro, tratou-me muito mal: fez oposição cerrada à nossa pregação. Na minha primeira defesa no tribunal não houve quem me assistisse — o grande Paulo ficou sozinho diante dos juízes pagãos — todos me desampararam. Contudo, o Senhor assistiu-me e deu-me forças».

«O abandono do discípulo: aquele jovem de 17, 18, 20 anos — afirmou o Papa — que com tanto entusiasmo deixa as riquezas para seguir Jesus; aquela jovem que faz o mesmo e depois, com força e fidelidade, tolera calúnias, perseguições diárias, ciúmes, também pequenas ou grandes perseguições, no final o Senhor pode pedir-lhe isto: a solidão do fim».

«Penso no maior homem da humanidade, e esta qualificação sai dos lábios de Jesus: João Batista: o maior homem nascido de mulher», disse o Papa. João era um «grande pregador: as pessoas iam ter com ele para ser batizadas. Como acabou? Sozinho, na prisão. Pensai no que é uma cela, no que eram as celas daquela época, pois se as de hoje são assim, imaginai as de outrora». E João acabou «sozinho, esquecido, degolado por causa da debilidade de um rei, do ódio de uma adúltera e do capricho de uma jovem: acabou assim o maior homem da história».

Mas «sem ir tão longe — prosseguiu — muitas vezes nas casas de repouso, onde vivem sacerdotes ou religiosas que dedicaram a vida à pregação, sentem-se sozinhos, apenas com o Senhor: ninguém se recorda deles». E «Jesus prometeu ao próprio Pedro esta terceira forma de pobreza: quando eras jovem, ias onde querias; quando fores velho, levar-te-ão para onde não queres».

«A pobreza como caminho do discípulo», afirmou o Papa. Sim, «o discípulo pobre, porque a sua riqueza é Jesus. Pobre, porque não vive apegado aos bens: primeiro passo. Pobre, porque é paciente diante das perseguições, pequenas ou grandes: segundo passo. Pobre, porque entra neste estado de espírito no final da vida, que nos recorda o de São Paulo: abandonado». E «o caminho do próprio Jesus acaba com esta oração ao Pai: “Pai, Pai, por que me abandonaste?”».

«Que esta revelação sobre a predileção do Senhor pela pobreza — concluiu Francisco — nos ajude a ir em frente e a rezar pelos discípulos, por todos os discípulos, quer sejam sacerdotes, religiosas, bispos, papas, leigos: todos. Para que saibam percorrer o caminho da pobreza como o Senhor quiser».

 



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