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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Identidade e herança

  Terça-feira, 23 de outubro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 44 de 30 de outubro de 2018

A identidade e a herança do cristão são constituídas pela esperança, talvez «a virtude teologal mais esquecida» e «mais difícil de entender», sublinhou o Papa na missa. O Pontífice, na homilia, inspirando-se como de costume nas leituras (tiradas da carta de São Paulo aos Efésios 2, 12-22 e do Evangelho de Lucas 12, 35-38), identificou imediatamente «duas palavras com as quais podemos descrever a mensagem litúrgica deste dia: cidadania e herança».

Refletindo sobre a primeira, explicou que o apóstolo na leitura «fala-nos acerca disto». Trata-se, esclareceu de «um dom que Deus nos concedeu, a todos nós: tornou-nos cidadãos, ou seja, deu-nos identidade. Ofereceu-nos o bilhete de identidade». Aliás, o Senhor «em Jesus revogou a Lei para recriar em si mesmo tudo, para reconciliar todos, também nós, todos... eliminando a inimizade que tínhamos com Ele. Veio para anunciar “paz a vós”, a todos. E agora, “podemos apresentar-nos ao Pai num só Espírito”; fez-nos “um”». Em síntese «esta é a nossa cidadania: “Assim sendo, vós já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos” em Jesus e n'Ele, também vós “edificados juntos” para vos tornardes habitação do Espírito Santo». Portanto, «a nossa identidade consiste precisamente em ser curados pelo Senhor, construídos como comunidade e ter o Espírito Santo dentro. Um cristão é isto. E a força é o Espírito que ele tem dentro». Consequentemente, «caminhamos, com esta força, com esta segurança, com esta firmeza: somos concidadãos e Deus está connosco. Na verdade, Ele leva-nos em frente, faz-nos caminhar».

Para onde? Rumo a «outra palavra» que o Pontífice quis propor: ou seja, «a herança. Identidade e herança. E a herança é o que Jesus nos explica no Evangelho: a herança é o que nós procuramos no nosso caminho, o que receberemos no final; mas devemos procurá-la todos os dias, ir rumo a esta herança». E tudo isto está resumido, afirmou ainda o Papa, na «grande virtude da esperança, talvez a virtude teologal mais esquecida, a mais difícil de entender», mas «é aquela que nos faz avançar no caminho da nossa identidade, em direção à herança». Com efeito, os cristãos sabem «o que significa a fé: é fácil compreendê-la e praticá-la. As três — fé, caridade e esperança — são um dom. A fé, compreendemo-la bem. A caridade é mais difícil de perceber: consiste em fazer o bem, em relação a Deus e aos outros. Mas, que significa a esperança?», questionou-se Francisco. E a resposta foi que «a nossa herança é um pouco difícil de entender». Portanto, imaginando uma espécie de diálogo esclareceu: «“Sim, sim, significa esperar: mas que significa esperar, aguardar...? O que esperas, tu?” — “Eu, sim, espero o Céu!” — “Mas que é o Céu, para ti?” — “Sim, é a luz, sim, é encontrar todos os Santos, é uma felicidade eterna...” mas não é fácil compreender o que significa a esperança. Viver na esperança significa caminhar, sim, rumo a um prémio, rumo à felicidade que não temos aqui, mas que teremos lá... é uma virtude difícil de perceber».

Mas além das dificuldades, a esperança tem inclusive outras caraterísticas, que o Papa enumerou: por exemplo, «é uma virtude humilde, muito humilde»; e, sobretudo, «é uma virtude que nunca desilude: se esperares, nunca serás desiludido. Nunca, nunca». Além disso, «é também uma virtude concreta». Mas, poderia ser a objeção, «como pode ser concreta, se eu não conheço o Céu nem o que me espera?». E mais uma vez a resposta não deixa espaço a dúvidas: a esperança é a herança do cristão, portanto esperança «rumo a algo», não rumo «a uma ideia» nem a «um lugar bonito». È mais: ela «é um encontro». A ponto que «Jesus — observou o Papa — sublinha sempre este aspeto da esperança, este estar à espera». Como no Evangelho hodierno, em que ela é representada no encontro «do patrão, quando ele regressa de uma festa». Ou como quando Jesus «fala, na parábola, das jovens estultas e das jovens prudentes»: com efeito, também naquele caso foi «um encontro com o Senhor que regressa das bodas, com o esposo». Porque «é sempre um encontro, um encontro com o Senhor. É concreto».

Mas, infelizmente, observou Francisco, «muitas vezes, não conhecemos isto... ou temos uma ideia estranha sobre a esperança... “sim, estaremos no Céu, ali... ali há música, há cantos, uma bela festa...” — “Mas será tediosa?! — “Não, não, mas será bonita...”: não. Encontraremos o Senhor. É um encontro». E fazendo uma confidência pessoal, o Papa explicou que quando ele pensa na esperança lhe vem à mente sobretudo uma imagem: «a mulher grávida, a mulher que espera um filho. Vai ao médico, mostra-lhe a ecografia — “ah, sim, o menino... está bem”... Não!». Pelo contrário, «ela está feliz! E todos os dias toca a sua barriga para acariciar aquele menino, está à espera do bebé, vive na expetativa daquele filho». E «esta imagem pode fazer-nos entender o que significa a esperança: viver para esse encontro. Aquela mulher imagina como serão os olhos do filho, como será o seu sorriso, se será loiro ou moreno.. pensa no encontro com o filho». Por conseguinte, reafirmou o Pontífice, «esta imagem, esta figura pode ajudar-nos muito a compreender o que é a esperança» e a «questionar-nos: “Eu espero assim, concretamente, ou espero um pouco de forma generalizada, um pouco de maneira gnóstica?”. A esperança é concreta, é de todos os dias, pois é um encontro. E todas as vezes que encontrarmos Jesus na Eucaristia, na oração, no Evangelho, nos pobres, na vida comunitária, damos mais um passo em direção a este encontro definitivo». Por isso, auspiciou que os cristãos tenham «a sabedoria de saber rejubilar com os pequenos encontros da vida com Jesus, preparando o encontro definitivo».

Um auspício reproposto nas considerações conclusivas nas quais Francisco, resumindo, explicou que a identidade é «o grande dom de Deus que nos tornou uma comunidade, nos tornou herdeiros disto»: e que a herança «é aquela força com a qual o Espírito Santo nos leva em frente com a esperança». Com a exortação final a pensar «hoje nestas duas palavras: qual é o meu bilhete de identidade? De que modo sou cristão? E também: como é a minha esperança? O que espero como herança?».

 



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