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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Os passos para conhecer Jesus

  Quinta-feira, 25 de outubro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 45 de 6 de novembro de 2018

«Seria um bom hábito, se todos os dias, nalgum momento, pudéssemos dizer: “Senhor, que eu te conheça e me conheça” e assim ir em frente», eis a sugestão proposta pelo Papa. Não servem «cristãos com palavras», que recitam o Credo «como papagaios», afirmou o Pontífice, convidando a viver a experiência de se sentirem seriamente pecadores.

«Se alguém — começou Francisco — nos perguntar “quem é Jesus Cristo”, certamente diremos o que aprendemos na catequese, como Ele veio salvar o mundo, diremos a verdadeira doutrina sobre Jesus: é o Salvador do mundo, o Filho do Pai, Deus, homem, o que recitamos no Credo». Mas, realçou, «será um pouco mais difícil responder à pergunta: “É verdade, mas quem é Jesus Cristo para ti?”». Trata-se de uma «pergunta» que «nos deixa um pouco envergonhados, porque para dar a resposta devo pensar e entrar no meu coração».

Portanto, insistiu o Papa, «quem é Jesus Cristo para mim? Qual é o conhecimento que tenho de Jesus Cristo? Quando digo que para mim Jesus Cristo é o Salvador, é assim — afirmou o Pontífice — mas cada um de nós deve responder também no coração, aquilo que sabe e sente de Jesus Cristo, pois todos sabemos que é o Salvador do mundo, que é o Filho de Deus, que veio à terra para nos salvar, e podemos também narrar muitos trechos do Evangelho».

Mas permanece a pergunta direta: quem é Jesus Cristo «para mim»? Precisamente «este é o trabalho de Paulo», explicou Francisco com referência ao trecho litúrgico tirado da carta aos Efésios (3, 14-21), observando que o apóstolo «tem esta inquietação de transmitir a sua experiência de Jesus Cristo». Com efeito, insistiu Francisco, Paulo «não conheceu Jesus Cristo a partir dos estudos teológicos e depois foi ver como a Escritura anunciava Jesus Cristo». Pelo contrário, «ele conheceu Jesus Cristo pela própria experiência, quando caiu do cavalo, quando o Senhor falou diretamente ao seu coração». E «o que Paulo sentiu, quer que também nós cristãos o sintamos».

Se fosse possível perguntar a Paulo «quem é Cristo para ti?», afirmou o Papa, eis que ele narraria «a sua simples experiência: “Amou-me e entregou-se por mim”». Paulo «está comprometido com Cristo, que pagou por ele», e «quer que os cristãos — neste caso, os cristãos de Éfeso — tenham esta experiência, entrem nela a ponto que cada um possa dizer: “Amou-me e entregou-se por mim”». Mas é importante «dizê-lo com a própria experiência», sugeriu o Papa.

Francisco quis reler um trecho da carta aos Efésios, proposta como primeira leitura: «Que pela fé Cristo habite em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender — Paulo insiste — qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus».

«Paulo quer conduzir todos nós a esta experiência», explicou o Pontífice, porque é «a experiência que ele teve de Jesus Cristo: o encontro com Jesus Cristo levou-o a entender esta grande realidade».

Mas «como se pode chegar a isto, qual é o caminho?», foi a pergunta proposta pelo Papa. Talvez, acrescentou, «eu tenha que recitar o Credo muitas vezes? Sim, mas não é exatamente o melhor caminho para chegar a esta experiência: ajudará, mas não é o certo». Com efeito, afirmou Francisco, «quando diz que Jesus se entregou por ele, que morreu por ele, Paulo quer dizer “pagou por mim” e nas suas cartas narra muitas vezes a própria experiência: “Eu era um pecador”, “eu perseguia os cristãos”».

Para o fazer, prosseguiu o Papa, ele «parte do próprio pecado, da sua existência pecadora, e a primeira definição que Paulo faz de si mesmo é “pecador”: escolhido por amor, mas pecador». Assim, observou o Pontífice, «o primeiro passo para o conhecimento de Cristo, para entrar neste mistério, é o conhecimento do próprio pecado, dos seus pecados».

«Todos nos aproximamos do sacramento da reconciliação e confessamos os nossos pecados», prosseguiu Francisco. «Mas — especificou — uma coisa é dizer os pecados, reconhecê-los, e outra é reconhecer-se “pecador”, “pecador” por natureza, capaz de fazer qualquer coisa». Em síntese, «reconhecer-se uma imundície». E «Paulo tem esta experiência».

Por isso, é preciso estar ciente de que «o primeiro passo para o conhecimento de Jesus Cristo é o conhecimento de nós mesmos, da própria miséria, que tem necessidade de ser redimida, que precisa de alguém que pague: pague o direito a chamar-se “filhos de Deus”». Na realidade, explicou o Papa, «todos o somos, mas» para o «afirmar e sentir era necessário o sacrifício de Cristo e, a partir disto, Paulo vai em frente com as experiências religiosas que tem, uma atrás da outra, mediante a oração e a caridade».

Eis então, reafirmou o Pontífice, que «o primeiro passo» é «reconhecer-se pecador, não na teoria mas na prática». Dizer «comecei a fazer isto, parei, mas se eu tivesse continuado por este caminho, teria acabado mal, muito mal» é «a raiz do pecado que te leva em frente». Portanto, «o primeiro passo é este: reconhecer-se pecador e dizer a si mesmo as próprias misérias, envergonhar-se de si mesmo: este é o primeiro passo».

«O segundo passo para conhecer Jesus é a contemplação, a oração», afirmou o Papa, propondo esta simples invocação: «“Senhor, que eu te conheça”». E acrescentando que «existe uma bonita oração, de um santo: “Senhor, que eu te conheça e me conheça”». Trata-se, explicou Francisco, «de nos conhecermos a nós mesmos e de conhecermos Jesus». E «aqui se realiza esta relação de salvação: a oração» insistiu o Pontífice, convidando a «não nos contentarmos com dizer três ou quatro palavras corretas sobre Jesus», porque «conhecer Jesus é uma aventura, mas uma aventura a sério, não uma aventura infantil».

Conhecer Jesus, prosseguiu o Papa, «é uma aventura que leva a vida inteira, porque o amor de Jesus é ilimitado». Recorda-o Paulo, ainda na carta aos Efésios: «Qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade» é uma expressão para indicar precisamente que «não tem limites». Mas «só podemos encontrar isto com a ajuda do Espírito Santo: é a experiência de um cristão». E «é o próprio Paulo quem o diz: Ele tem todo o poder de fazer muito mais do que podemos pedir ou pensar. Tem o poder de o fazer». Mas «devemos pedir-lhe: “Senhor, que eu te conheça; que quando eu falar contigo, não diga palavras de papagaio, mas palavras tiradas da minha experiência, e que como Paulo eu possa dizer: “Amou-me e entregou-se por mim” e dizê-lo com convicção». Precisamente esta é a nossa força, este é o nosso testemunho».

«Há muitos cristãos com palavras; muitas vezes, também nós somos assim», alertou Francisco. Mas «isto não é santidade: santidade é ser cristãos que praticam na vida o que Jesus ensinou e semeou no coração». Para fazer isto é necessário «conhecer Jesus» com «o discernimento ilimitado: a altura, o comprimento, a plenitude, tudo».

O «primeiro passo», repetiu o Papa, é sempre «reconhecer-nos pecadores: sem este conhecimento, e sem esta confissão interior, que sou um pecador, não podemos ir em frente». Depois, recordou, o «segundo passo» é «a oração ao Senhor para que, com o seu poder, nos faça conhecer este mistério de Jesus, o qual é o fogo que Ele mesmo trouxe à terra».

 



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