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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Não ter medo de ser consolado

Terça-feira, 11 de dezembro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 03 de 15 de janeiro de 2019

No Natal Deus «bate à porta de cada um com carícias» e cabe a nós «não opor resistência ao seu amor porque temos medo da sua consolação, da sua ternura, uma palavra que hoje desapareceu do dicionário da nossa vida». Foi a nova proposta espiritual do Papa Francisco, para o tempo de Advento.

A primeira leitura, observou o Pontífice referindo-se ao trecho do livro de Isaías (40, 1-11), «é um convite à consolação: “Consolai, consolai o meu povo” — diz o vosso Deus”». E explica também «como o consolar: “Animai Jerusalém, dizei-lhe bem alto que as suas lidas estão terminadas, que a sua falta está expiada, que recebeu, da mão do Senhor, pena dupla por todos os seus pecados.”». «É a consolação da salvação — afirmou o Pontífice — a consolação que nos traz a boa nova que fomos salvos». E «este é o ofício que o Nosso Senhor ressuscitado exerce, desempenha juntamente com os seus discípulos: consolar». Com efeito «naqueles quarenta dias o Senhor consola o seu povo: vai ter com um, com outro, com outro ainda, fala, mostra-se, deixa-se tocar e consola o seu povo». E «é precisamente o ofício de Cristo ressuscitado: consolar».

«Mas nós, é curioso, opomos resistência à consolação» observou Francisco. «É algo que vem de dentro, como se nos sentíssemos mais seguros nas águas turbulentas dos problemas, da ansiedade, das tribulações» e «não queremos arriscar». Sim, insistiu o Pontífice, «apostamos na desolação, nos problemas, na derrota». E assim «o Senhor age com tanta força mas encontra resistência: não temos confiança na consolação». De resto, acrescentou, «vemos isto inclusive com os discípulos, na manhã da Páscoa: “Sim, mas quero tocar e ter a certeza”». Há o «medo de arriscar, o medo de outra derrota». Também «os discípulos de Emaús não queriam ser consolados, afastavam-se: “Não, uma derrota é suficiente! Não queremos outra”».

«Estamos apegados a este pessimismo espiritual, fazemos resistência» afirmou o Papa. «Penso nisto — confidenciou — quando nas audiências públicas alguns pais aproximam os filhos de mim para que eu os abençoe, lhes pegue ao colo ou os abrace». Contudo «algumas crianças olham para mim e gritam, começam a chorar, têm medo: mas o que acontece? Pobrezinho, o pequeno vê-me vestido de branco e imagina o médico e o enfermeiro que lhe aplica injeções para o vacinar e pensa: “Não, outra não!”». Mas, recordou Francisco, «também nós estamos feridos dentro e temos medo das carícias do Senhor, somos um pouco assim».

«Consolai, consolai o meu povo» é o clamor de Isaías. «E o Senhor consola com a ternura» explicou o Pontífice. Mas a ternura «é uma linguagem que os profetas de desventura não conhecem, é uma palavra cancelada por todos os vícios que nos afastam do Senhor: vícios clericais, vícios dos cristãos que não querem mudar, tíbios». Porque «a ternura assusta».

«“Eis com ele o preço da sua vitória; faz-se preceder pelos frutos da sua conquista”: assim termina o excerto de Isaías» disse o Papa: «Como um pastor, vai apascentar o seu rebanho, reunir os animais dispersos, carregar os cordeiros nas dobras do seu manto, conduzir lentamente as ovelhas que amamentam». É exatamente «este o modo de consolar do Senhor: com ternura» repetiu Francisco, porque «a ternura consola: as mães, quando a criança chora, acaricia-a tranquilizando-a com a ternura». Mas «de facto, a ternura é uma palavra que o mundo de hoje cancelou do dicionário».

«O Senhor convida-nos a deixar-nos acariciar por Ele, consolar por Ele» prosseguiu o Pontífice. «Este ofício do Senhor de consolar ajuda-nos também nesta preparação para o Natal, desperta-nos um pouco» observou o Papa. A ponto que hoje «na oração da coleta, pedimos a graça de uma “exultação sincera”, isto é, esta alegria simples mas sincera». E, «aliás, diria que o estado habitual do cristão deve ser a consolação». Não devemos esquecer que «também nos momentos difíceis os mártires entravam no Coliseu cantando». E assim fazem os mártires de hoje: «penso nos corajosos trabalhadores coptas no litoral da Líbia, degolados», que «morreram pronunciando “Jesus, Jesus”!». Nisto «há uma consolação, dentro, uma alegria até no momento do martírio».

Portanto, «o estado habitual do cristão deve ser a consolação — explicou Francisco — que não é o mesmo que o otimismo, não: o otimismo é outra coisa».

Mas «a consolação, aquela base positiva: fala-se de pessoas luminosas, positivas». E «a positividade, a luminosidade do cristão é a consolação». Mas «nos momentos em que se sofre não se sente a consolação».

«Contudo a consolação doa a paz» reiterou o Pontífice. «Um cristão não pode perder a paz, porque é um dom do Senhor: o Senhor oferece-a a todos, até nos momentos mais difíceis». Sim «a paz». E nesta perspetiva, sugeriu o Papa, «peçamos isto ao Senhor: “Senhor, que nesta semana de preparação para o Natal eu me deixe consolar por Ti, que não tenha medo de me deixar consolar, que eu não sinta medo. Que também eu me prepare para o Natal pelo menos com paz: a paz do coração, a paz da tua presença, a paz que as tuas carícias proporcionam”».

Certamente, reconhecemo-nos tão pecadores. Mas temos a garantia — sugeriu Francisco referindo-se ao trecho litúrgico hodierno de Mateus (18, 12-14) — do que nos diz o Evangelho de hoje: «O Senhor que consola como pastor, se perder um dos seus vai procurá-lo, como o homem que tem cem ovelhas e uma delas perde-se». Assim «faz o Senhor com cada um de nós». Talvez «eu não queira a paz, resista à paz, à consolação, mas Ele está à porta, Ele bate para que abramos o coração para nos deixar consolar e obter a paz». E «fá-lo com suavidade: bate à porta com carícias».

 



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