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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
 POR OCASIÃO DO DIA INTERNACIONAL
DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIAS 

 

Na celebração do Dia mundial das pessoas deficientes, renovemos o nosso olhar de fé, que vê em cada irmão e irmã a presença do próprio Cristo, o qual considera que cada gesto de amor praticado a favor de um dos seus irmãos mais pequeninos é feito por Ele (cf. Mt 25, 40). Nesta ocasião, gostaria de recordar que hoje em dia a promoção dos direitos à participação desempenha um papel central para combater as discriminações e promover a cultura do encontro e da qualidade de vida.

Foram alcançados grandes progressos em relação às pessoas deficientes nos âmbitos médico e assistencial, mas ainda hoje se constata a presença da cultura do descarte, e muitas delas sentem que vivem sem pertença nem participação. Tudo isto exige não só a salvaguarda dos direitos das pessoas deficientes e das suas famílias, mas também nos exorta a tornar o mundo mais humano, eliminando tudo o que as impede de beneficiar da plena cidadania, os obstáculos do preconceito, e favorecendo a acessibilidade dos lugares e a qualidade de vida, tendo em consideração todas as dimensões do ser humano.

É necessário cuidar e acompanhar as pessoas deficientes em todas as condições de vida, utilizando inclusive as tecnologias modernas, mas sem as absolutizar; enfrentar as situações de marginalidade com força e ternura; acompanhá-las e “ungi-las” de dignidade para uma participação ativa na comunidade civil e eclesial. Trata-se de um caminho exigente e também cansativo, que contribuirá cada vez mais para a formação de consciências capazes de reconhecer cada um como pessoa única e irrepetível.

E não esqueçamos os numerosos “exilados escondidos” que vivem nas nossas casas, nas nossas famílias e nas nossas sociedades (cf. Angelus, 29 de dezembro de 2013; Discurso ao Corpo Diplomático, 12 de janeiro de 2015). Penso nas pessoas de todas as idades, especialmente os idosos que, também por causa da sua deficiência, são por vezes sentidas como um peso, como “presenças incómodas”, e correm o risco de serem descartadas, de serem privadas de perspetivas concretas de trabalho, para participarem na construção do seu futuro.

Somos chamados a reconhecer em cada pessoa deficiente, até com deficiências complexas e graves, uma contribuição singular para o bem comum através da sua biografia original. Reconhecer a dignidade de cada um, conscientes de que ela não depende da funcionalidade dos cinco sentidos (cf. Diálogo com os participantes no congresso da Conferência episcopal italiana (CEI), sobre a deficiência, 11 de junho de 2016). O Evangelho ensina-nos esta conversão. É preciso desenvolver anticorpos contra uma cultura que considera algumas vidas de série a e outras de série b: isto é um pecado social! Ter a coragem de dar voz àqueles que são discriminados por causa da sua condição de deficiência, porque infelizmente em certas nações ainda hoje é difícil reconhecê-las como pessoas de igual dignidade, como irmãos e irmãs em humanidade.

Com efeito, fazer boas leis e derrubar as barreiras físicas é importante, mas não suficiente, se não mudarmos a mentalidade, se não ultrapassarmos uma cultura generalizada que continua a produzir desigualdades, impedindo que as pessoas deficientes participem ativamente na vida do dia a dia.

Nos últimos anos foram implementados e realizados processos inclusivos, mas isto ainda não é suficiente, pois os preconceitos produzem, além de barreiras físicas, também limites ao acesso à educação para todos, ao emprego e à participação. Uma pessoa deficiente, para se construir, precisa não só de existir, mas também de pertencer a uma comunidade.

Encorajo todos aqueles que trabalham com pessoas deficientes, a dar continuidade a este importante serviço e compromisso, que determina o grau de civilização de uma nação. E rezo para que cada pessoa possa sentir o olhar paternal de Deus, que afirma a sua plena dignidade e o valor incondicional da sua vida.

Vaticano, 3 de dezembro de 2019

Francisco

 



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