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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO SRI LANKA E ÀS FILIPINAS

(12-19 DE JANEIRO DE 2015)

ENCONTRO DO SANTO PADRE COM OS JORNALISTAS
DURANTE O VOO PARA MANILA

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

[Multimídia]


 

(Padre Lombardi)

Também nesta viagem intermédia, como vê, estamos todos prontos para ouvir as suas palavras. E parabéns pela primeira parte da viagem, que foi realizada de forma tão brilhante. Agora, como de costume, vamos pôr-lhe uma série de perguntas. Santidade, quando estiver cansado e quiser terminar, basta dizê-lo e tranquilamente deixa-nos... Já está cansado agora?... Para começar, sabendo eu que é algo que lhe está muito a peito e de que nos deseja falar a propósito desta viagem – refiro-me ao significado desta canonização de São José Vaz – então peço-lhe que nos diga já ao início esta sua mensagem importante. Depois passamos às perguntas e temos várias pessoas inscritas. É tudo.

(Papa Francisco)

Antes de mais nada, bom dia; e esclareço uma dúvida a Carolina: é verdade, chegou-me a imagem de Nossa Senhora de Lujan, muito obrigado! Estas canonizações foram feitas com a metodologia – está prevista no direito da Igreja – que se chama canonização equipolente. Utiliza-se quando há já muito tempo que um homem ou uma mulher é Beato, Beata, e goza da veneração do povo de Deus, que o venera realmente como santo; não se faz o processo do milagre. Existem pessoas que estão nestas condições há séculos. O processo de Ângela de Foligno fez-se assim; foi a primeira. Depois optei por fazê-lo para pessoas que foram grandes evangelizadoras. Primeiro, Pedro Favre, que foi um evangelizador da Europa: pode-se dizer que morreu pela estrada, enquanto viajava evangelizando, tinha quarenta anos. E depois os outros, os evangelizadores do Canadá, Francisco de Laval e Maria da Encarnação: estes dois foram praticamente os fundadores da Igreja no Canadá, ele como bispo e ela como religiosa, com todo o apostolado que lá fizeram. O outro a seguir é José de Anchieta, do Brasil, o fundador de São Paulo, que há muito era Beato e agora é Santo. Nestes dias, José Vaz, evangelizador do Sri Lanka. E em Setembro, se Deus quiser, farei a canonização de Junípero Serra, nos Estados Unidos, porque foi o evangelizador da sua parte oeste. São figuras que fizeram uma vigorosa evangelização e estão em sintonia com a espiritualidade e a teologia da Evangelii gaudium. E é por isso que escolhi estas figuras. Isto era o que eu queria dizer.

(Padre Lombardi)

Obrigado. Então agora passemos às perguntas, para as quais se inscreveram os nossos colegas. O primeiro é Jerry O'Connell de America Magazine, que o Santo Padre conhece bem. A ele, a palavra.

(Jerry O'Connell)

Antes de mais nada, concordo com o Padre Lombardi e dou-lhe os parabéns, Santo Padre, pelo sucesso da visita ao Sri Lanka. Apresento uma pergunta em nome do grupo inglês; pusemo-nos de acordo para lhe pôr uma questão-ponte, que ligue a visita ao Sri Lanka e a visita às Filipinas. No Sri Lanka, vimos a beleza da natureza, mas também a vulnerabilidade daquela ilha: desde as alterações climáticas até ao mar, etc. Estamos voando para as Filipinas e o Santo Padre visitará a área já atingida. Há mais de um ano que está a estudar a questão da ecologia e do cuidado da criação. Por isso, a minha pergunta prevê três aspectos. Primeiro: a alteração climática deve-se, principalmente, à obra do homem, à sua falta de cuidado pela natureza? Segundo: a sua Encíclica, quando sairá? Terceiro: o Santo Padre insiste muito, como vimos no Sri Lanka, sobre a cooperação entre religiões; porventura tem intenção de convidar as outras religiões a unirem-se para enfrentar este problema? Obrigado.

(Papa Francisco)

Quanto à primeira pergunta, o senhor disse uma palavra – «principalmente» – que me poupa de fazer um esclarecimento. Totalmente, não sei; mas principalmente, em grande medida, é o homem que maltrata a natureza, continuamente. De certo modo assenhoreamo-nos da natureza, da irmã terra, da mãe terra. Lembro-me – já ouvistes isto – daquilo que um velho agricultor me disse uma vez: «Deus perdoa sempre, nós – os homens – algumas vezes, a natureza nunca». Se a maltratas, ela faz-to pagar. Creio que explorámos demasiadamente a natureza; as desflorestações, por exemplo. Recordo a Conferência da Aparecida: naquele tempo, eu não compreendia bem este problema e, quando ouvia os bispos brasileiros falar da desflorestação da Amazónia, não os conseguia entender bem. A Amazónia é um pulmão do mundo. Depois, há cinco anos, com uma comissão dos direitos humanos, fiz um recurso para o Supremo Tribunal da Argentina a fim de se suspender, no norte do país – na área norte de Salta, Tartagal –, pelo menos temporariamente, uma terrível desflorestação. Este é um aspecto; outro são as monoculturas. Por exemplo, os agricultores sabem que se pode cultivar o milho durante três anos, depois tem-se que parar e fazer outra cultura um ou dois anos para nitrogenizar a terra, senão a terra não faz crescer. Na Argentina, por exemplo, cultiva-se apenas soja e mais soja até a terra se esgotar. Nem todos fazem isto, mas é um exemplo entre muitos outros. Creio que o homem foi longe demais. Hoje, graças a Deus, levantam-se vozes, tantas, tantas que falam disto; neste momento, quero recordar o meu amado irmão Bartolomeu, que há anos prega sobre isto. Li muitas coisas dele para preparar esta Encíclica. Podia falar mais sobre isto, mas não quero alongar-me. Digo só isto! Guardini tem uma frase bastante esclarecedora. Diz ele: a segunda forma de incultura, é a má. A primeira é a incultura em que recebemos a criação com a ordem de a tornar cultura; mas, quando o homem se assenhoreia em demasia e exorbita, esta cultura vira-se contra o homem. Pensemos em Hiroshima. Cria-se uma incultura, ou seja, a segunda.

Quanto à Encíclica: o primeiro projecto fê-lo o Cardeal Turkson com a sua equipe. Depois eu, com a ajuda de alguns, peguei e trabalhei nele. Em seguida, com alguns teólogos, fiz um terceiro projecto, enviando cópia à Congregação para a Doutrina da Fé, à Segunda Secção da Secretaria de Estado e ao Teólogo da Casa Pontifícia, pedindo que o estudassem bem para eu não dizer «tolices». Há três semanas, recebi as respostas, algumas muito longas mas todas construtivas. E agora vou reservar uma semana inteira de Março para a concluir. Creio que, no final de Março, estará concluída, passando-se às traduções. Penso que, se o trabalho de tradução correr bem – Mons. Becciu está a ouvir-me; ele tem que contribuir para isso –, se tudo correr bem, em Junho/Julho poderá sair. Importante é que transcorra um pouco de tempo entre a saída da Encíclica e o encontro de Paris, para que lhe sirva de contribuição. O encontro do Peru não foi de grande valor. Fiquei desiludido com a falta de coragem: chegados a determinado ponto, pararam. Esperemos que em Paris os representantes sejam mais corajosos para avançar sobre este assunto.

Quanto à terceira pergunta, creio que o diálogo entre as religiões é importante a propósito disto. As outras religiões têm uma boa perspectiva. Inclusive sobre este ponto, há um acordo para se ter o mesmo ponto de vista. Ainda não aparece na Encíclica. Na realidade, falei com algumas pessoas doutras religiões sobre o tema e sei que o Cardeal Turkson também o fez, e o mesmo fizeram pelo menos dois teólogos: este é o caminho feito. A Encíclica não será uma declaração conjunta. Os encontros virão depois.

(Padre Lombardi)

Obrigado, Santo Padre. Então passamos a palavra a Pia, do grupo das Filipinas.

(Pia)

Santo Padre, a nação filipina sente-se muito, muito feliz em Lhe dar as boas-vindas dentro de poucas horas. A minha pergunta é: Qual é a sua mensagem para aqueles milhares de pessoas que não O puderam encontrar, nem o poderão fazer pessoalmente, embora o desejassem? Tenho pena, mas não falo italiano…

(Papa Francisco)

Para responder a isso, corro o risco de me tornar demasiado simples, mas direi uma palavra. O centro, o núcleo da mensagem serão os pobres, os pobres que querem ir para diante, os pobres que sofreram o tufão Yolanda e sofrem ainda as suas consequências; os pobres que têm a fé, a esperança nesta comemoração do V centenário da pregação do Evangelho nas Filipinas; o povo de Deus, nas Filipinas, os pobres, incluindo os pobres explorados, explorados por aqueles que praticam tantas e tantas injustiças sociais, espirituais, existenciais. Penso neles. Ao visitar as Filipinas, penso neles. No dia 7 de Janeiro, Natal das Igrejas Orientais, houve festa na nossa casa de Santa Marta, pois há lá três pessoas de nacionalidade etíope e também alguns filipinos que lá trabalham. Os etíopes fizeram a festa: convidaram todos os empregados, uns cinquenta, para o almoço. Eu estive com eles e, vendo os empregados das Filipinas, pensava que saíram da sua pátria à procura de maior bem-estar, deixando pai, mãe, filhos, para virem até Roma. Os pobres. Não sei se respondi... O núcleo será isto.

(Padre Lombardi)

Juan Vicente Boo vem fazer a pergunta pelo grupo espanhol.

(Juan Vicente Boo)

Santo Padre, antes de mais nada, devo dizer que, para estar cansado, tem um bom aspecto. A pergunta que lhe queria fazer, em nome do grupo espanhol, versa sobre a história do Sri Lanka, a história recente: nos anos da guerra civil no Sri Lanka, houve mais de 300 atentados kamikazes, atentados suicidas, feitos por homens, mulheres, adolescentes de ambos os sexos. Agora estamos a assistir a atentados suicidas de adolescentes e até mesmo crianças. Que pensa desta forma de fazer a guerra? Obrigado.

(Papa Francisco)

Eu diria que se trata de uma falta de respeito, mas talvez possa dizer mais. Creio que, por trás de cada atentado suicida, haja um desequilíbrio, um desequilíbrio humano; não sei se mental, mas humano. Naquela pessoa, há algo que está errado. Não tem o equilíbrio sobre o sentido da vida: a vida própria e a dos outros. Luta por algo..., é verdade, até dar a vida; mas não a dá bem. Há muitas e muitas pessoas que trabalham – pensemos nos missionários, por exemplo – dando a vida, mas para construir. Aqui dá-se a vida autodestruindo-se e para destruir. Isto está errado; aqui há algo de errado. Acompanhei a tese em Sociologia, não para o doutoramento mas mestrado, de um piloto da Alitália que estudou os kamikazes japoneses. Ele falou-me alguma coisa sobre isso, mas é difícil de compreender. Quando tive de corrigir, era mais na parte metodológica. Não se compreende... Mas não é um fenómeno só do Oriente. Neste momento, há investigações sobre uma proposta do género surgida na II Guerra Mundial e reproposta pelo fascismo na Itália. Não há provas, mas investiga-se sobre isso. No fenómeno, há algo que está muito ligado aos sistemas ditatoriais ou totalitários. O sistema totalitário mata; se não é a vida, mata possibilidades, mata futuro, mata muitas coisas. E até mesmo a vida. Isto é verdade. Mas não é um problema resolvido. Não é só oriental. É importante. Não me vem à mente mais nada.

Quanto à utilização das crianças. O que acabo de dizer em geral é para todos; mas agora fixemo-nos nas crianças. As crianças são usadas por todo o lado para tantas coisas: exploradas no trabalho, exploradas como escravos, exploradas até sexualmente. Há alguns anos, juntamente com alguns membros do Senado na Argentina, quisemos fazer uma campanha nos principais hotéis, dizendo publicamente que ali não eram exploradas crianças pelos turistas. Não conseguimos levá-la avante; existem resistências ocultas. Eu não sei se se exploram ou não; era uma medida preventiva. Depois, algumas vezes, quando eu estava na Alemanha folheava alguns jornais onde aparecia, na secção do turismo, indicado o turismo na região do sudeste asiático, e até mesmo turismo erótico, e lá havia crianças. As crianças são exploradas, mas o trabalho escravo das crianças é terrível. São exploradas sexualmente também. E mais, não ouso dizer.

(Padre Lombardi)

Obrigado, Santidade. Agora passemos a palavra a Ignazio Ingrao, pelo grupo italiano.

(Ignazio Ingrao)

Bom dia, trabalho para o semanal Panorama e Il mio Papa. Santidade, no mundo há muita preocupação com a sua incolumidade. Segundo os serviços secretos americanos e israelitas, o Vaticano seria inclusivamente alvo dos terroristas islâmicos. Nos sites fundamentalistas apareceu a bandeira do Islão desfraldada sobre São Pedro. Teme-se também pela sua segurança nas viagens fora da Itália. Sabemos que o Santo Padre não quer renunciar ao contacto directo com as pessoas, mas, como estão as coisas, não seria necessário modificar algo nos seus comportamentos e nos seus programas? Teme-se também pela incolumidade dos fiéis que participam nas celebrações, em caso de atentados. Está preocupado com isso? E de modo mais geral, na sua opinião, qual é a melhor maneira para responder a estas ameaças dos integralistas islâmicos? Obrigado.

(Papa Francisco)

A meu ver, a melhor maneira de responder é sempre a mansidão. Ser manso, humilde – como o pão – sem agredir. Estou aqui, mas há pessoas que não compreendem isto. Depois, quanto às preocupações, sinto preocupação pelos fiéis; isto preocupa-me verdadeiramente. E sobre isto, falei com a Segurança Vaticana: aqui, no voo, temos o Dr. Giani, que está ao comando da mesma; ele está a par deste problema. Isto preocupa-me, e muito. Depois, se tenho medo? O senhor sabe que tenho um defeito: uma boa dose de inconsciência. Sou um inconsciente nestas coisas. Algumas vezes me pus a questão: E se isto acontecesse a mim? E disse ao Senhor: Senhor, peço-Vos apenas uma graça, que não me faça sofrer. É que não sou corajoso em presença da dor; sinto muito, muito medo, mas não de Deus. Entretanto, sei que se tomam as medidas de segurança, prudentes mas seguras. Depois, veremos…

(Padre Lombardi)

Obrigado, Santidade. E esperamos também nós sentir a mesma serenidade, sempre. Então agora seria Christoph Schmidt pelo grupo alemão, que se aproxima rapidamente. Diria ainda a Sébastien Maillard para se preparar. Depois perguntaremos ao Papa se quer continuar ou prefere que interrompamos.

(Christoph Schmidt)

Santo Padre, bom dia. Poderia falar-nos da sua visita ao templo budista, ontem, que foi uma grande surpresa… Qual foi o motivo para uma visita tão espontânea? Esta religião serve de inspiração para o Santo Padre? Sabemos que os missionários cristãos estiveram convencidos até o século XX que o budismo fosse uma farsa, uma religião do diabo. Terceiro, no budismo, que poderia haver de relevante para o futuro da Ásia?

(Papa Francisco)

Como decorreu a visita, porque fui lá? O responsável deste templo budista conseguiu fazer-se convidar pelo governo para ir ao aeroporto e lá – é muito amigo do Cardeal Ranjith – saudou-me e pediu para visitar o templo, recomendando a Ranjith que me levasse lá. Depois falei com o Cardeal, mas não havia tempo, porque, quando cheguei, tive de suspender o encontro com os bispos, porque não me sentia bem de saúde, estava cansado – aqueles 29 quilómetros a saudar as pessoas deixaram-me como um farrapo –, enfim, não havia tempo. E ontem, regressando de Madhu, havia uma possibilidade; telefonei e fomos. Naquele templo, há relíquias dos discípulos de Buda, de dois. Para eles, são muito importantes. Estas relíquias estavam na Inglaterra e eles conseguiram que lhas devolvessem. Bem, assim ele veio encontrar-me ao aeroporto e eu fui encontrá-lo na sua casa.

Esta é a primeira coisa, a segunda. Ontem, em Madhu, vi uma coisa que nunca teria imaginado: não eram todos católicos, nem sequer a maioria. Havia budistas, muçulmanos, hindus; e todos vão lá rezar. Vão e dizem que recebem graças. Há no povo – e o povo nunca se engana – há lá o sentido do povo, há algo que os une. E se eles se sentem assim tão naturalmente unidos que vão rezar juntos a um templo – que é cristão, mas não é só cristão, porque todos o querem – por que motivo não deveria eu ir ao templo budista para os saudar? Este testemunho de ontem em Madhu é muito importante. Faz-nos compreender o sentido da inter-religiosidade que se vive no Sri Lanka: há respeito entre eles. Há grupitos fundamentalistas, mas não estão com o povo: são elites ideológicas, mas não estão com o povo.

Depois, a ideia de que iriam para o inferno. Mas também os protestantes... Quando eu era criança – naquele tempo, há 70 anos –, todos os protestantes iam para o inferno, todos. Assim nos diziam. E recordo a primeira experiência que tive de ecumenismo. Contei-a já no outro dia aos líderes do Exército da Salvação. Tinha eu quatro ou cinco anos - mas recordo-o, estou ainda a vê-lo – e seguia pela rua com a minha avó, levava-me pela mão. No outro passeio, passavam duas mulheres do Exército de Salvação com aquele chapéu que usavam dantes com a pluma, ou algo do género; agora já não o usam. Perguntei à minha avó: «Avó, aquelas são freiras?» E ela disse-me isto: «Não! São protestantes, mas são boas». Foi a primeira vez que ouvi falar bem duma pessoa doutra religião, dum protestante. Naquele tempo, na catequese, diziam-nos que iam todos para o inferno. Mas eu creio que a Igreja cresceu muito na consciência do respeito – como disse a eles, no encontro inter-religioso, em Colombo – nos valores. Quando lemos o que nos diz o Concílio Vaticano II sobre os valores nas outras religiões – o respeito –, vemos como nisto a Igreja cresceu tanto. Sim, houve períodos obscuros na história da Igreja; devemos dizê-lo, sem vergonha, porque também nós estamos num caminho de conversão contínua: do pecado à graça, sempre. E esta inter-religiosidade como irmãos, respeitando-se sempre, é uma graça. Não sei se havia algo mais que esqueci... É tudo? Vielen danke.

(Padre Lombardi)

Sébastien Maillard pelo grupo francês.

(Sébastien Maillard)

Santo Padre, ontem de manhã, durante a Missa, falou da liberdade religiosa como direito humano fundamental. Mas, no respeito das diferentes religiões, até que ponto se pode chegar na liberdade de expressão, já que também esta é um direito humano fundamental? Obrigado.

(Papa Francisco)

Obrigado pela pergunta, muito sensata. Creio que ambos sejam direitos humanos fundamentais: a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Não se pode... pensemos... O senhor é francês, vamos a Paris! Falemos claro. Não se pode esconder uma verdade, ou seja, que cada um tem o direito de praticar a sua religião, sem ofender, livremente. Assim fazemos, assim queremos que todos façam. Segundo, não se pode ofender, fazer a guerra, matar em nome da própria religião, isto é, em nome de Deus. Aquilo que está a acontecer agora faz-nos pensar... surpreende-nos. Mas não esqueçamos a nossa história: quantas guerras de religiosas tivemos! O senhor pense na «noite de São Bartolomeu»... como se compreende aquilo? Também nós fomos pecadores neste ponto. Mas não se pode matar em nome de Deus. Isto é uma aberração. Matar em nome de Deus é uma aberração. Creio que isto seja o ponto principal na liberdade de religião: deve-se praticar com liberdade, sem ofender, mas sem impor nem matar.

Quanto à liberdade de expressão. Cada um tem não só a liberdade, o direito, mas também a obrigação de dizer o que pensa para ajudar o bem comum. A obrigação. Pensemos num deputado, num senador: se ele não disser aquilo que, no seu modo de ver, é a verdadeira estrada, não colabora para o bem comum. E não só estes… muitos outros. Temos a obrigação de dizer abertamente; temos esta liberdade, mas sem ofender. Porque é verdade que não se pode reagir violentamente, mas se o Dr. Gasbarri, grande amigo, me diz um palavrão contra a minha mãe, apanha um soco. É normal! É normal. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode zombar da fé. O Papa Bento XVI, num discurso – não me lembro bem onde – falara desta mentalidade pós-positivista, da metafísica pós-positivista, que acabava por levar a crer que as religiões ou as expressões religiosas são uma espécie de subcultura, que são toleradas, mas valem pouco, não fazem parte da cultura iluminada. E este é um legado do Iluminismo. Há tantas pessoas que insultam as religiões, fazem pouco delas, digamos que «brincam» com a religião dos outros… estas pessoas provocam e pode-lhes suceder o que aconteceria ao Dr. Gabarri se dissesse algo contra a minha mãe. Há um limite. Toda a religião tem dignidade; toda a religião que respeite a vida humana, a pessoa humana. E eu não posso fazer pouco dela. Isto é um limite. Servi-me do exemplo do limite, para dizer que, na liberdade de expressão, há limites, como no caso da minha mãe. Não sei se consegui responder à pergunta. Obrigado.

(Padre Lombardi)

Obrigado, Santidade! Já passa de meia hora que estamos aqui e fizemos uma primeira rodada de todos os grupos. O Santo Padre disse-nos também que se sentia um pouco cansado. Sinta-se livre! (…) Ainda quer continuar? Mas, de verdade, diga-nos se a dado momento quiser terminar. Agora temos na lista Joshua McElwee do National Catholic Report.

(Joshua McElwee)

Santo Padre, uma vez mais obrigado pelo tempo que nos dá. Já muitas vezes falou contra o extremismo religioso… Tem alguma ideia concreta de como envolver outros líderes religiosos para combater este problema? Talvez um encontro em Assis, como tiveram os Papas João Paulo II e Bento XVI?

(Papa Francisco)

Obrigado. Também esta proposta foi feita. Sei que alguns trabalham para isso. Falei com o Cardeal Tauran, que está no Diálogo Inter-religioso, e ouviu dizer isso. Sei que o desejo não partiu apenas de nós; veio ainda mais dos outros, partiu das outras religiões e está no ar. Não sei se há algo em fase de organização, mas o desejo está no ar. Obrigado.

(Padre Lombardi)

Então uma última pergunta, vinda de novo do grupo filipino. Temos Lynda Jumilla Abalos, que nos pede ainda alguma coisa e, em seguida, deixamos livre o Papa.

(Lynda Jumilla Abalos)

Bom dia, Santo Padre, tenho pena de o meu italiano não ser muito bom. Santidade, fez apelo à verdade, à reconciliação no Sri Lanka. Gostaria de lhe perguntar se apoiaria a Comissão em prol da verdade, no Sri Lanka e noutros países, para os conflitos internos…

(Papa Francisco)

Não sei bem como são estas Comissões. Sabia como era a Comissão que houve a seu tempo na Argentina, depois da ditadura militar, e aquela apoiei-a, porque seguia uma boa estrada. Quanto a estas não posso falar, porque não as conheço concretamente. Sim, apoio todos os esforços para se encontrar a verdade, mas esforços que sejam equilibrados; não como vingança, mas equilibrados, para ajudar a porem-se de acordo. Ouvi uma coisa do Presidente do Sri Lanka, mas não quero que isto seja interpretado como um comentário político; repito o que ouvi e, com isso, estou de acordo. Disse-me isto: primeiro, ele quer levar por diante o trabalho de paz – primeira palavra –, de reconciliação. Depois prosseguiu indicando outra palavra; disse: porque se deve criar a harmonia no povo. A harmonia é mais do que a paz e a reconciliação. É mais. É mais bela ainda. Inclusivamente, é musical a harmonia. E continuou com outra palavra: porque esta harmonia nos dará a felicidade e a alegria. Paz, reconciliação, harmonia, felicidade e alegria. Fiquei surpreendido e disse: «Gosto de ouvir isto, mas não é fácil». Quinta palavra: sim, teremos de chegar ao coração do povo. E esta última palavra, tão profunda, sugere-me o pensamento para responder à sua pergunta: só chegando ao coração do povo, que sabe o que é o sofrimento, que sabe o que são as injustiças, que sofreu tantas coisas nas guerras e também nas ditaduras (tantas coisas!), só chegando ao coração – o povo também se entende de perdão – é que podemos encontrar caminhos justos, sem comprometimentos, justos para avançar nisto que a senhora diz. As Comissões de Inquérito sobre a verdade são um dos elementos que podem ajudar, pelo menos assim penso das Comissões da Argentina: um elemento que ajudou. Um, mas há outros elementos que temos de realizar para podermos chegar à paz, à reconciliação, à harmonia, à felicidade e podermos chegar ao coração do povo. É isto o que me acode à mente, e tomo as palavras do Presidente que me pareceram bem ditas.

(Padre Lombardi)

Obrigado, Santo Padre! Creio que nos tenha dado material mais do que suficiente para trabalhar agora durante as próximas horas desta viagem.

Uma última coisa, pequeníssima. Hoje mesmo, a Agência ANSA, que é a principal agência italiana de notícias, completa 70 anos. Fielmente, sempre viaja connosco alguém da ANSA, hoje é Giovanna Chirri. Pedia ao Santo Padre se dizia uma palavra de felicitações à ANSA pelos seus 70 anos...

(Papa Francisco)

A primeira vez que conheci a ANSA foi com Francesca Ambrogetti, em Buenos Aires. Francesca era a presidente do grupo, da equipe de jornalistas estrangeiros em Buenos Aires. Através dela, conheci a ANSA, que aquela mulher bem representou em Buenos Aires. Desejo-vos o melhor. Setenta anos não são uma brincadeira! Perseverar no serviço durante 70 anos reveste-se de grande mérito. Desejo-vos o melhor, desejo-vos sempre o melhor. Tenho o hábito, quando não sei como vão decorrer as coisas, de pedir a Santa Teresa do Menino Jesus que se ocupe ela do problema, da situação e, se o fizer, que me envie uma rosa; e às vezes fá-lo, mas de modo estranho. Isto mesmo pedi para esta viagem, que se ocupasse dela e me enviasse uma rosa, mas, em vez de uma rosa, veio ela mesma saudar-me. Obrigado a Carolina, muito obrigado a Teresinha e a vós. Obrigado. Tenham um bom dia.

(Padre Lombardi)

Obrigado a Vossa Santidade, e boa viagem. Agora descanse um pouco, a fim de se preparar para os próximos três dias. Obrigado a todos.

 



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